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“Descobri o sexo através de uma das empregadas. Ela tinha um relacionamento perturbado com o porteiro e o cara fez a cabeça dela pra me envolver nos jogos sexuais dos dois”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , , 3 comentários
Querido Ogro,

Acho que é sensato, antes de qualquer coisa, te contar como achei teu blog: foi pesquisando no Google as palavras "eu odeio minha buceta pedofilia". Pronto, é isso mesmo, sem muitas firulas. Agora eu vou tentar estruturar o que me levou a querer escrever pro teu blog.

Sou a filha mais velha de um casal que sempre foi muito trabalhador. Minha mãe nunca foi do tipo que lavava, cozinhava e cuidava da casa, e por isso ela sempre dependeu de diaristas e empregadas mensais em casa. Justo na época em que eu crescia e começava a formar minhas concepções acerca dos relacionamentos humanos, minha mãe se encontrava submersa em uma profunda depressão, vítima do espírito controlador do meu pai. Não é que ele seja uma má pessoa - não é - mas se a gente se recolhe e deixa que ele tome conta da situação, ele nos afoga em suas vontades. E minha mãe, por ter um passado difícil, por ter crescido sem pai, sem referencial do que seria uma relação saudável entre um homem e uma mulher, vivia recolhida em si. Era frustrante, e eu a ODIAVA por isso. Entenda, eu nunca pude conversar com ela sobre sexo ou sobre namoros, e gostar de alguém.

Na verdade, eu descobri o sexo através de uma das empregadas que trabalhou pra gente. Ela tinha um relacionamento completamente perturbado com o porteiro do prédio em que morávamos, e, um dia, eu os flagrei em casa (devia ter por volta dos nove anos). O cara fez a cabeça dela pra me envolver nos jogos sexuais dos dois, e foi assim que me tornei um brinquedo sexual deles, por assim dizer. Não consigo recordar com clareza por quanto tempo ele "me usaram". As memórias desses tempos nunca me surgem claras ou em ordem cronológica. Creio ter sofrido o que os terapeutas chamam de dissociação. Recordo-me de momentos, isolados, mas não consigo ordená-los ou situá-los no tempo. Não posso dizer que sofri um estupro, porque entendo que para isso teria sido necessária ocorrer a penetração, certo? No começo, eles me obrigavam apenas a assistir enquanto faziam sexo na cama dos meus pais, ou na minha cama. Depois de um tempo, ela me obrigava a ficar por perto enquanto eles transavam e ele acariciava minha bunda. Daí pra tentar comer o cu, foi um passo. É sério, esse deve ter sido o dia mais estranho da minha vida, porque eu não sabia o que era aquilo, o que tava acontecendo. Ele me virou de quatro sobre a minha cama, e disse que ia me comer, acho que pôs uma camisinha e sem dó tentou forçar tudo pra dentro, só que eu gritei e ela impediu que ele continuasse - agora entendo que é porque alguém da minha família com certeza notaria e suspeitaria logo dela, que era minha babá. Uma vez ele me forçou a chupar o pau dele, eu lembro do gosto até hoje, era horrível.

Eu lembro do rosto dele, de como ele me olhava e de como eu me sentia tão pequena e suja, lembro de como ele costumava me chupar ou de como me fazia tomar nas coxas e gozava em mim depois. Eu não sei porque nunca fiz nada, ou porque nunca contei pros meus pais. Foi mais ou menos nessa época também que eu comecei a me masturbar, e isso só piorava as coisas, porque, se por um lado eu gostava das sensações físicas que sentia, por outro era extremamente errado que eu experimentasse aquilo (era como eu me sentia). Lembro que um dia escrevi no meu diário algo como "sou uma pessoa má, sou uma pessoa má por foder com o Xxxxxxxx". Foder. Que criança de 9/10 anos de idade é obrigada a saber o peso dessa palavra desde cedo? Foder é diferente de fazer amor, é diferente de sexo, é diferente de transar. Foder é mais pesado, é mais agressivo, foder não me parece adequado no vocabulário de uma menina de 10 anos. Não que seja errado que ela use essa palavra, mas porque é uma coisa muito além as compreensão de uma criança.

A pior parte é que eu sentia prazer quando ele me chupava. E por muitos e muitos anos depois disso eu sentia que era minha culpa gostar disso, que eu não tinha esse direito e que eu era uma pessoa má, suja, errada, incapaz de ser pura, boa, benevolente ou de um dia merecer o amor sincero de um cara.

Ah, detalhe, além de tudo isso, os dois ainda praticavam uma espécie de tortura psicológica comigo. O cara dizia que um dia comeria a minha mãe - e dava a entender que poderia fazer isso a força, se fosse preciso. E que tiraria meu "cabaço"(virgindade), como ele dizia em sua violência. E ela gostava de dizer que meu pai usava drogas, que ele dava em cima das moças que trabalhavam em casa, que ele tinha um filho fora do casamento… Uma vez meu pai percebeu minha tristeza e pediu pra conversar comigo a sós, e ela disse que eu seu contasse pra ele o que tava acontecendo, ele faria a mesma coisa comigo. Meu pai queria me ajudar e ela me fez ter medo dele… Quando fui crescendo, fui percebendo melhor o que eles faziam comigo e decidi que não queria mais que isso acontecesse. Foi quando eu comecei a reagir. Se ela deixava ele entrar em casa e ele vinha pra cima de mim, eu gritava ou jogava almofadas nele. EU NÃO AGUENTAVA MAIS.

Um dia, não sei o que a moça fez de errado em casa, mas ela foi despedida. Aí eu já me sentia segura em casa. Mas não saia de lá. Não brincava com outras meninas do prédio, não gostava de ter que ir comprar pão na esquina. Ele sempre dava um jeito de me encontrar pelos corredores e me abraçar ou tentar me beijar. Sempre que eu tinha que sair de casa, e estava sozinha, eu corria pelo prédio, com medo. Só contei pra alguém da família o que tinha acontecido quando tinha por volta dos 12/13 anos. Foi pra minha tia (que também é minha madrinha), e ela que pediu minha permissão pra contar sobre isso pros meus pais. Eu lembro que a minha mãe me apertou como não fazia antes, me abraçou bem apertado, e ela não conseguia falar nada e chorava muito, muito mesmo. Aquele choro sofrido, que sai bem de dentro da gente e parece que machuca mais do que a dor em si, você sabe como é? Eu me senti muito obrigada a ser forte, fingir que não era nada e que eu tava bem, porque ela não tava, e isso era claro pra mim, sabe? Meu pai ficou muito mal também, ele queria machucar aquele cara fisicamente (e só recentemente minha mãe me contou que naquela noite eles chamaram um irmão do meu pai pra fazer companhia pra ele, porque meu pai realmente queria acabar com o cara que tinha feito aquilo comigo sabe). Eu nunca, em toda a minha vida, tinha visto meu pai chorar.

Até os meus dezessete anos de idade eu vivi uma farsa. Tirava boas notas, tinha amigos, mas era retraída. Fiz terapia dos 12 aos 15, mas não aprendi nada ali, porque eu fingia estar bem e não contava meus medos e traumas pra ninguém, nem pra minha psicóloga. Eu tinha que ser forte. E eu tinha muito medo de não conseguir. Não me aproximava de garotos, e vivia num mundo completamente irreal, minha criação. Gostava de imaginar que a minha pele era bem branca e eu era loira e delicada. Chegava a me apaixonar platonicamente por pessoas (do meu convívio ou até atores famosos). Uma vez cheguei a acreditar, de verdade, que eu era mais velha e namorava/era casada com um ator de cinema. Eu sei que isso parece completamente estúpido, mas quando eu refleti sobre isso, alguns anos mais tarde, e percebi o quanto minha cabeça tava FODIDA foi que eu notei como estive perto, talvez, da real loucura. Minha avó é esquizofrênica, aliás. Ela sempre estava na casa quando essas coisas aconteciam, mas meus pais me disseram que, se a gente levasse o caso à justiça, ela não poderia ser uma testemunha por causa da condição de saúde dela :/

Quando me interessava por garotos, não conseguia me aproximar deles de jeito nenhum, e nunca fui alvo de cantadas. Eu era a amiga feia do grupo, sabe? Eu me sentia extremamente feia, e eu achava que por ter manchas no corpo, por ser gordinha, por ter a sobrancelha grossa, enfim, por não ser a típica menininha delicada, eu não merecia o amor/atenção/afeto de ninguém da minha idade. Eu sentia que só merecia a atenção de caras mais velhos e nojentos, como o cara que abusou de mim. Eu não conseguia andar na rua sozinha, nem dirigir a palavra a pessoas que não faziam parte da minha zona de conforto. Acho que perdi muita coisa nesse tempo. Meu primeiro beijo foi aos quinze anos. Minha primeira relação sexual foi aos 20 (no final de 2012).

No ano do convênio minha farsa começou a ruir. Era o ano em que as pessoas começavam a decidir o que queriam pro resto de suas vidas, e se eu só vivia em um mundo de faz de contas e evitava mergulhar em mim, como saber quem eu era ou o que queria? Voltei a ficar retraída, ia pra aula mas não prestava atenção em nada e não conversava tanto com meus amigos, passava a aula inteira escrevendo coisas sobre minhas tristezas num diário. Também usava a internet como fuga, amigos virtuais e jogos de rpg tomavam meu tempo. Isso me trazia muitos problemas com meu pai, que não entendia porque eu era assim. Foi nesse ano que voltei à terapia com a mesma psicóloga que tinha me atendido antes. (E foi por volta dessa época que minha mãe finalmente começou a se respeitar como indivíduo e sair da bolha de submissão que ela vivia. Hoje em dia ela é minha melhor amiga, e é a pessoa que eu mais amo e respeito em todo o universo. Eu sinto tanta pena dela por ter perdido muito tempo da vida sem fazer as pazes consigo mesma :/)

Mais ou menos no final desse ano, no entanto, comecei a gostar muito de um amigo da minha turma, o I. Ele era um cara muito que me atraía por ser calado e um verdadeiro mistério. E eu achava que ele retribuía esse afeto, mas JAMAIS que teria a coragem de perguntar, e a gente ficava lá, dois bobos gostando um do outro sem dizer nada.

Entrei em duas faculdades em 2010, e continuava me sentindo triste e sem perspectiva. Tive que largar a terapia de novo, por conta do horário corrido - e também porque, sinceramente, tava de saco cheio dessa médica que nunca percebeu que eu fazia uma capa de firme, mas me encontrava completamente perdida em sentimentos ruins (tudo bem, até então nem eu sabia disso, mas não era esse o papel dela?). Por essa época comecei a largar a fantasia (mesmo que ela ainda existisse, na forma de um amor platônico por um colega da faculdade, ou pelo hábito de andar na rua tentando adivinhar/projetar pensamentos nas cabeças das pessoas que cruzavam meu caminho), e comecei a mergulhar em mim, de verdade, me conhecer melhor. Foi quando eu comecei a revisitar aquelas coisas que aconteceram na minha infância e que me magoavam tanto. Esse processo levou um tempo, e foi acompanhado de muito choro de dor na madrugada, que às vezes me impedia de dormir decentemente; de morder os braços e me arranhar; de dar socos no estômago embaixo do chuveiro; e a intensificação de uma coisa que eu já fazia desde a época da escola: arranhar e cutucar/estourar umas bolinhas que apareciam nas minhas costas, braços e pernas e que são decorrentes de um processo alérgico, genético. Tenho as manchas até hoje. Inclusive, essas mesmas manchas eram causa constante de sofrimento, porque eu achava que nenhum cara gostava de mim por essas coisas que estavam erradas e eram feias em mim, como as manchas no meu rosto e nos meus braços. Cheguei a ficar com mais um cara na época de escola, mas foi completamente broxante, evitava as ligações dele, e me sentia mal por ter ficado com ele. Acho que ele chegou a comentar que eu beijava mal (recalque, Ogro, eu sei), e isso me deixou paranoica e mais frustrada ainda.

Constantemente me comparava às minhas amigas, e as achava muito mais bonitas, legais, divertidas e interessantes do que eu. Eu queria ser como elas, ou melhor, queria ser qualquer outra pessoa, menos eu. Nesse meio tempo, o I. meu amigo legal que eu achava que gostava de mim, se mudou pra outra cidade, bem distante de onde eu morava. E um dia, no meio do ano passado, eu decidi que poderia me colocar em prova, contando pra ele que eu tinha gostado dele uma vez. E foi quando ele finalmente confessou que também gostava de mim, e como ele sempre vem pra cá nas férias, ficou meio que implícito que a gente ia tentar ficar juntos no final do ano. Isso me deixava tensa, ansiosa, e completamente nervosa. Foi nessa onda de me por a prova também, que eu acabei ficando com um amigo de infância, mas a experiência foi odiosa, não senti um pingo de tesão e acho que fui completamente seca e grossa ao dispensar o cara por sms na mesma noite.

Mais ou menos em outubro de 2011 eu finalmente contei TUDO pra minha mãe. Como eu me sentia, como eu tinha certeza de que jamais conseguiria ser feliz no mundo real, de que eu não era capaz de arranjar um emprego, de ter uma família, de como eu me sentia vazia, de como eu pensava em me matar quase todos os dias, de como eu sentia que vivia na iminência de uma coisa muito ruim acontecer comigo a qualquer instante. De como nada, absolutamente nada, me dava prazer - exceto a masturbação, mas eu continuava a me sentir vazia por fazer isso periodicamente. Aí a gente procurou ajuda médica, fizemos exames, e por volta de novembro ou dezembro eu comecei a tomar medicação antidepressiva.

Em dezembro, meu amigo I. veio pra cá de novo, e no primeiro dia que a gente se viu eu tomei a iniciativa de beijar ele, mas fiz isso por achar que eu podia, mas não por realmente querer. Ainda era estranho ficar com alguém, e eu tinha certeza de que não ia dar certo, e que eu não sabia como, nem conseguiria ficar com uma pessoa firme. Eu não sei te dizer o que ele tem, ou como funciona isso, mas eu tava enganada. A gente acabou ficando e ficando, e eu me sentia cada vez mais confortável com ele. Cheguei a contar por alto o que tinha acontecido comigo quando eu era menor, e a gente tava deitado na cama e ele me abraçou bem forte e deixou que eu chorasse no ombro dele, e isso teve um significado especial pra mim. Eu senti que naquele dia esse carinha quebrou uma barreira que tinha em mim e que me impedia de confiar nas pessoas e de me abrir emocionalmente. A gente não chegou a transar, mas eu redescobri meu corpo por causa dele, pela visão dele. Os peitos que antes eram muito grandes e feios e caídos, viraram peitos bonitos e macios. O corpo que antes era OBESO virou um corpo fofo, bom de apertar (e que eu aperto mesmo, porque eu gosto de me permitir brincar comigo mesma e me conhecer a fundo). Mas eu não superei minha buceta. Eu acho minha buceta completamente feia, e já fiz muita pesquisa de fotos na internet só pra me torturar, e eu juro que isso às vezes me faz chorar o mesmo choro sofrido que eu já comentei antes; eu chego no ponto de realmente sofrer por causa disso.

Ainda assim, acho que tô num momento bom, o melhor momento que já estive desde meus 8 anos de idade. Eu nunca mais fui feliz de verdade depois disso, mas agora to tentando ser a todo o custo. E eu quero gostar de mim por inteira. Às vezes tenho recaídas assombrosas, me dá vontade de mandar todo mundo que tá perto de mim ir se foder, me dá vontade de ficar dias sem tomar banho, de não sair de casa, de não comer, de dormir o dia todo. Mas o remédio me ajuda muito. Continuo sem sair pras festas com meus amigos, mas acho que nesse semestre vou me concentrar em tentar sair e relaxar de verdade.

A questão é, como é que eu posso fazer pra gostar da minha vagina? Às vezes tenho vontade de ligar pro I. e contar isso, mas entenda, é muito estranho dizer isso para um cara ( a menos que ele seja um Ogro da internet, acho que esse tipo de cara não se incomoda com isso). Eu sou extremamente bem resolvida no que tange as questões sexuais, tenho vontade de fazer de tudo, e me sinto bem com isso. Não acho que seja vulgar, sujo ou sórdido. Descobri o sexo como a expressão do ser, como o momento em que você entra em contato com o que há de mais íntimo e interior no seu corpo - é quase xamânico; quase espiritualizado, de tão carnal e visceral que é. A questão é que eu adoraria que o I. me chupasse, mas não posso deixar que ele faça isso enquanto eu considerar minha vagina feia e repugnante.

Você entende como o nó é bem amarrado? O sexo oral era exatamente a única coisa que eu apreciava nas "relações" com aquele cara anos e anos atrás, e agora é a única barreira que eu não consigo me permitir vencer. E eu me sinto muito frustrada porque, ao contrário de alguma pessoas, eu sei disso, eu conheço o problema, mas não consigo encontrar um meio prara resolvê-lo. E, enquanto isso, ele me frustra e me machuca. Ah, eu também tenho mania de me sentir culpada por tudo que acontece. Mesmo quando é meu direito ficar chateada, eu me sinto culpada por ficar. Se brigo com alguém, e essa pessoa fica triste, eu me sinto culpada também :/

É a primeira vez que eu faço um apanhado geral dessa minha curta história de vida em forma de texto, a primeira vez que crio um registro dos meus problemas. Acho que só de escrever as coisas já ficaram mais claras. Vou te enviar a carta de qualquer forma, porque pode ser até que esse relato ajude alguma outra pessoa a tentar se conhecer melhor, e dividir a dor. Dor dividida é dor diminuída, Ogro. E eu te agradeço de antemão por ser o alvo da divisão da minha dor dessa noite.

Enquanto escrevia essa carta, lembrei de coisas, chorei, sofri, mas lembrei também que eu sou forte, muito forte, e uma pessoa boa de verdade. E isso, essa redenção que eu venho me proporcionando desde o ano passado, não tem preço. Essa é a melhor coisa que eu posso fazer por mim.

Obrigada.


Minha cara revoltada da buceta;

Lembro que li, sim, seu e-mail, e até achei que tivesse respondido, mas vi que não o fiz. Peço desculpas por isso... é que são muitos e-mails que me chegam e há muito tempo ando bem bagunçado emocionalmente – mais do que eu esperava. Assim acabo protelando respostas e isso só me deixa pior porque deixo pessoas esperando por respostas às suas dúvidas. E não há nada mais angustiante do que não ter respostas para as coisas que nos fazem muito mal e nos tomam boa parte do nosso tempo.

Depois de ler sua carta- enorme, diga-se de passagem -, vejo que você tenta estruturar muito bem as situações que lhe aconteceram, como se tudo precisasse de uma contextualização pra ser compreendida. Isso demonstra que você já buscou resposta para tudo o que aconteceu e não chegou a nenhum consenso consigo mesma.

O que te aconteceu com sua babá é uma atrocidade. E não veja isso como merecimento. Tampouco se veja como traumatizada. Algo horrível e hediondo aconteceu com você sem que você tivesse culpa por isso. Mesmo que tenha se masturbado ou tentado algo disso na época: você estava apenas repetindo algo que fisicamente era agradável, mas quando você fazia, era menos perturbador ou sujo.

Pegue uma criança hoje de 10 anos. Acarinhe sua cabeça com as unhas. Ela vai gostar, vai relaxar, fisicamente isso trará uma sensação gostosa pra ela, dará prazer a ela. E se ela gostar, o que a impede de repetir? Ou fazer com algum amigo? O que muda nisso é a postura com que fizeram um "carinho" em você: foi com malícia, com crueldade e com muita doentia de mentes extremamente monstruosas.

Realmente espero que entenda essa analogia. Não estou diminuindo o que te aconteceu, estou tentando te isentar de alguma culpa por sentir prazer em algo que sim, é prazeroso, já que a mulher possui uma parte do corpo especificamente pra isso, mas que foi errado por ser tão precoce e com alguém totalmente ingênua e inocente. Se eles tivesse te dado bebida e você ficasse bêbada, seria sua culpa? E se você depois quisesse beber mais pra sentir aquela sensação de novo, seria sua culpa? Não! É físico, é algo que está no sangue e nas terminações nervosas. O erro está em quem te apresentou esse carrossel de emoções antes de estar preparada para compreender. Você só era uma criança, não a culpe por isso... Você não era uma puta simplesmente porque não tinha cabeça, corpo e alma pra ser uma... Nem sabia o que era isso!

E outra: eles te assediavam psicologicamente, te deixando com medo, em um ambiente totalmente inseguro pra você ter voz ativa de alguma forma. Tanto é que quando seus pais souberam, você acabou tomando uma postura mais segura pra "confortá-los" na sua concepção do que seria mais confortável. Sua tentativa de fingir que estava tudo bem era uma maneira de deixar a sujeira embaixo do tapete e não ter de lidar com ela. Seja na hora em que souberam, seja na terapia que fez.

Mas assim: achar que esteve perto da loucura porque projetava paixões em atores e\ou pessoas próximas é demais. Quem nunca fez isso? Eu era apaixonado por tanta atriz e modelo nos meus 15, 16 anos... devo ter casado mentalmente com metade delas. E elas nunca descobriam que eu era bígamo. Se soubessem, dava merda e eu não estaria aqui pra contar história.

Enfim: isso é típico da idade. A projeção, a idealização... e mesmo o recolhimento ao não acessar outras pessoas próximas, como garotos da sua idade na época. Sério: todo mundo passou por isso, não é algo que te aconteceu por conta do abuso que sofreu. Todo adolescente se sente feio, todo mundo está contra nós nessa época e ninguém nos entende. Aí quando crescemos, não entendemos quem passa pelo que passamos.

Mas o problema que mais te fode: a tua buceta. Como gostar da tua buceta, você me pergunta... Olha, convencer uma mulher a gostar de uma buceta às vezes pode ser bem complicado. Mas quando se trata da própria buceta, fica mais fácil. Ainda mais no seu caso, que consegue ter um conhecimento mais profundo do que o sexo pode ser na vida de alguém.

Claro que o que te aconteceu deixará sequelas nesse nível. Ainda mais quando se trata de sexo oral, que é o que você sentia prazer de alguma forma quando aquele filho da puta fazia. E isso a fazia se sentir péssima e suja por gostar. É natural que vá buscar na lembrança física algum vestígio daquele momento. Está fisicamente em você. Mas precisa ligar o sexo oral agora à outras lembranças. Atuais, mais fortes, quando você tem a autonomia e a segurança de optar por tê-lo ou não. Antes lhe fora tomado o direito de escolher se queria ou não, mas agora você tem toda garantia se impor e escolher o que quer pra você.

Ligue o sexo a algo que está ao seu controle, como algo que você opta pelo que quer e quando quer. É seu corpo. é seu desejo, é sua libido. Está em suas mãos - algumas vezes literalmente, né?- e ninguém pode te tomar isso. E vejo que tem nesse cara um bom sujeito a te ajudar nisso. Aparentemente ele te respeita, respeita sua história, não te recriminou nem te fez se sentir mal. Pelo contrário: te fez cogitar se abrir para outro homem - de novo: às vezes, literalmente.

Ele fez com que você se gostasse, sentisse conforto com seu corpo, seus seios, suas curvas. A buceta é o próximo passo inevitável. O que pega é fazer de uma maneira que te traga prazer e te traga menos lembranças. E o jeito disso acontecer é justamente tentando evitar qualquer semelhança com o que te acontecia. Que façam isso num carro num drive, você no banco de trás, em um ambiente totalmente diferente do que lhe acontecia. Que você fique por cima da cara dele, controlando os avanços e ritmos, para que também seja diferente do que você tinha. Isso te trará uma dissociação do que aconteceu.

E mesmo que em algum momento você trave e pare e sinta repulsa e queira sair do ambiente: pare, diga que não está bom pra você, que precisa de um tempo e de um ombro e de um carinho. Se ele fez isso antes e te fez bem, certamente fará de novo. Não precisa ser perfeito na primeira vez, mas precisa haver uma primeira vez. Mesmo que doa, mesmo que te faça parar na metade: faça pra você ter um parâmetro de como reagirá a isso. Depois é que saberemos como poderá agir, minha cara... Você precisa transpor essa última barreira. Quem sabe depois disso, até mesmo o impacto do passado seja menor em você?

Você não esquecerá, você sentirá dias de profunda dor e reclusão. Se lembrará do que aconteceu e sentirá dor e ódio. Mas serão menores. E durarão horas e não dias. E verá que, mesmo que algumas vezes esse fantasma suba à sua cama, ainda assim será o seu corpo e apenas você terá direito sobre ele. E conseguirá mandá-lo de volta pro armário por mais dias e menos noites.

Aproveita que está nessa sede de melhorar e se sentir melhor. Ninguém pode tirar isso de você. Não é uma má pessoa, não fez nada de ruim pra merecer essa situação. Então acorda e vá tentar. A vida te trará várias outras dores, mas só quem sabe o quanto algo pode ser torturante e dolorido é que é capaz de desfrutar de breves momentos de alegria e sossego.

Que seja em uma simples chupada exorcizante de buceta, pois!

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“Me senti abusada, um lixo. Quando tudo acabou, ele ainda quis me beijar, pediu água, me abraçou...”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 5 comentários
Querido Ogro

Talvez minha pequena e breve história de uma menina de 15 anos não seja assim, talvez, tão dolorida ao comparar com dificuldades de muitas outras meninas que escreveram para você, mas te digo que é dolorida o bastante para trazer nesse meu pequeno livro que ainda estou a escrever, se prepare por que vai começar.

Minha mãe era evangélica meu pai também toda família torcia pra um casamento deles, se casaram muitos novos, tiveram uma vida boa, compravam o que queriam, porém só quem aproveitou isso foi minha irmã mais velha. Após minha irmã completar 6 anos, eles se separaram, minha mãe se mudou, começou uma nova vida, enquanto ele ia à falência com amantes. Sabendo da boa vida dela, ele voltou atrás, a engravidou de mim só pra ficar no “bem bom”. Minha avó quando soube da gravidez, implorou por um aborto, mas os remédios não deram resposta.

Com seis meses de vida, ele nos deixou por uma amante e aí vieram as dificuldades. Cresci sem pai, passando fome por que minha mãe não tinha emprego pra comprar o meu leite, ela saia atrás de emprego todos os dias pela manhã e só chegava a noite, minha irmã ia estudar e eu ficava na creche. Com 4 ou 5 anos de idade, meus amigos eram meus livros, aprendi logo a ler e escrever sozinha, muito nova era a unica a ler e escrever na creche. Me dói saber que não tive uma mãe ou um pai do meu lado pra me ensinar, muitos menos pra cuidar, muitas vezes ficava em casa só, sem atenção... não me lembro dessas coisas acho que foi apagado da minha memória toda aquela dor.

Com 8 anos comecei a ver pessoas mortas em todo canto da casa e conversava com eles. Pra mim eram amigos, era muito pequena e não entendia, chorava muito e fazia escândalos, queria e implorava por atenção, queria um colo, um abraço não queria ficar só. Quando via minha mãe saindo de casa, chorava e implorava pra ir com ela, isso só com 8 anos. Nunca tive atenção, nunca falei com minha mãe, nunca ouvi minha mãe contar uma história pra mim, me levar em um parque ou perguntar como foi o meu dia.

Me dói quando minha família me vê e me olham falando: “essa é aquela menina ruim que chorava e fazia escândalo”, como se me rejeitassem... mas, querido ogro, não me lembro de nada da minha infância como se Deus tivesse apagado da minha memória pra não chorar mais. A única lembrança é de quando chorei muito e minha mãe me amarrou no pé da cama e depois me deu uma surra. Quando me desamarrou, fui tomar um banho toda vermelha e marcada. A única lembrança boa era de brincar no quarto sozinha com minhas panelinhas.

Os relacionamentos conturbados da minha mãe me atrapalharam, um dos meus padrastos me trancava no banheiro no escuro. Eu era ruim, admito, mas eu chorava para sair e ele não me tirava e assim fui crescendo rebelde, revoltada, triste.

Hoje com 15 anos estou em uma depressão horrível, me corto muitas vezes com facas pois ajuda a passar a dor da tristeza. Sim, continuo sem atenção da minha mãe e de toda família, mal vejo meu pai... às vezes ele aparece quando precisa que faça algo. Minha pequena e breve alegria era meu ex-namorado, até mês passado com o que aconteceu, era virgem e ainda sou, pelo menos é o que quero pensar.

Estava com ele na rua, já era tarde, ele me deixava em casa e sempre disse que respeitaria o meu tempo, mas não foi assim: na minha rua havia uma construção, ele me puxou lá pra dentro e começou a me agarrar. Eu pedia pra parar porque não estava preparada, mas ele não parava. Eu empurrava ele pra longe de mim, mas ele mandava eu ficar quieta e calma. Fiquei paralisada com a dor, ele começou a me masturbar, eu pedia pra parar por que estava doendo, pois nunca tinha feito isso. Ele pedia pra que eu ficasse calada. Eu me paralisei, não me movia, estava em choque. A minha primeira vez era como um sonho pra mim, logo ele que só estava comigo há três semanas, estava aprendendo a ama-lo, ainda não estava apaixonada...

Me senti abusada, um lixo, um vômito. Quando tudo acabou, ele ainda quis me beijar, pediu água, me abraçou... Eu obedecia, parecia não ser eu ali, mas quando entrei não chorei, segurei minhas lagrimas e me calei, então vi que minha calcinha havia sangrado. Não houve penetração, ele só me masturbava com muita agressividade, dava tapa na minha cara, nunca tinha passado por isso, era estranho... Por isso digo que em minha mente sou virgem, pois acredito que só perderei quando for pra cama com um homem querendo estar lá e sim quando acontecer penetração. Pesquisando na internet vi que meu hímen pode não ter rompido, pois com a violência da masturbação ele pode ter me machucado e não ter rompido, sangrado apenas pela violência que ele teve comigo

Uma semana depois ele não veio mais atrás de mim. Aí, sim, chorei... chorei por achar que era culpa minha o que tinha acontecido, era pra ser mais dura e tirado ele de perto de mim. Por ser fiel a Deus, olhei pro céu e pedi perdão, estava triste me sentindo um vômito, achando que a culpa era minha, mas também sei que sou muito inocente, nunca tinha sequer me masturbado. O que me dói é ele sair por ai falando que é evangélico, crente... e fez isso comigo!

Me ajude. Estou muito mal, por favor me ajude, me responda, gosto da maneira como fala bruto, porém fala a verdade de uma maneira que irá me empurrar a seguir em frente e esquecer o acontecido, esquecer toda essa história de solidão. Por favor, peço que não fale minha identidade.


Minha cara bagunçada;

Primeiro: você precisa parar de falar que tudo o que aconteceu a você foi por conta do seu passado. Você mesma diz que não tem memórias dessa época, como pode afirmar que tudo foi por conta do que te aconteceu? O que você está fazendo é apenas projetando sua frustração atual nessa lacuna do seu passado. Você criou um universo onde tudo para você está baseado no que te aconteceu no passado sendo que você não se lembra de nada daquilo! Muito do que você fala sobre seu pai, por exemplo, é baseado no que sua mãe conta sobre ele. E como ela foi traída, obviamente que não falará bem dele pra você. Perceba como você coloca a vida deles como uma coisa perfeita até o seu nascimento e, depois disso, tudo foi uma merda. Porra... não, né!?

Você não pode afirmar isso, você era criança, não tinha acesso ao que acontecia. É por isso que você não tem memória disso tudo. Quem tem lembranças reais e concretas da vida aos 3 ou 4 anos? Ninguém! São flashes de pequenas coisas que se mantém na cabeça, apenas. Mas você conta como se fosse um filme, com todo o enredo já traçado e com os vilões estabelecidos.

Isso de falar que aprende a ler sozinha, que os livros eram sua companhia... tudo isso é projeção sua na tentativa de preencher o que está em branco na sua mente. Mesmo isso de falar com espíritos: a maioria das pessoas que julgam passar por estados de abandono tendem a acreditar que falavam com pessoas mortas e as viam como amigos.

Você pega o seu estado atual e projeta tudo no passado e isso se torna crível pra você. Qualquer coisa que você julgar ter acontecido no passado será colocado em um espaço da sua mente como sendo verdade. Não digo que não tenha tido o que alega ter passado, mas não foi da forma como você apresenta. Tudo agora está intenso e potencializado por uma violência sofrida por você.

E é nesse ponto que deve se focar: aprender a lidar com as projeções que faz nos outros e no próprio passado. Perceba como se refere ao seu ex-namorado: era o único que te trazia breves momentos de alegria. Mas namoraram por três semanas, apenas! E ele se mostrou ser um idiota monstruoso ao te atacar dessa forma.

Você diz que estava aprendendo a amá-lo e que ainda não estava apaixonada. Em três semanas! Perceba onde você erra: você joga nos outros aquilo que você sente e logo em seguida os responsabiliza por sua tristeza. Como pode afirmar que estava aprendendo a amar sendo que nem apaixonada estava? E em menos de um mês?!

Entenda: o que ele fez, ter te atacado, não foi sua culpa. Isso ninguém poderá impor a você: a responsabilidade por algo tão mesquinho e desumano. Ele é o responsável por não respeitá-la e tão somente ele deve ser o culpado por isso.

Mas você erra, sim, ao projetar demais. E não é que seja culpa sua, mas há uma consequência a ser arcada com esse tipo de comportamento. Você acaba não se conhecendo o suficiente pra entender como as coisas funcionam contigo. E tem o principal ponto nisso tudo: você só tem 15 anos, minha cara! Ninguém sabe de nada aos 15! Lógico que ser molestada como você foi não ajudará em nada, mas você se sentiria da mesma forma caso o visse saindo com outra menina: se sentiria um lixo, violada, violentada e humilhada. Porque é um primeiro relacionamento... você teve o azar de encontrar um idiota machista que não aceita “não” como resposta.

O que te falta são respostas para suas lacunas vazias no passado. Só assim irá parar de preenchê-las com qualquer coisa que justifique sua vitimização como a maior coitada que existe na Terra. Quantas adolescentes você conhece que se cortam? E que tem graves problemas de relacionamento com a mãe? E que se sentem a injustiçada da família? E que encontraram namorados imbecis e machistas que não as respeitaram? Eu posso te dar uma lista em qualquer lugar... aqui mesmo no blog tem vários casos.

Você sofreu uma violência que te deixou assustada e com razão. E isso aflorou tudo o que julgava ter acontecido com você, com todos os detalhes que você acredita ter mesmo alegando não ter memórias sobre a época. Calma, essa fase é ruim pra caralho, mas há de passar. Basta você aprender a parar de ter pena de você, parar de colocar a culpa na sua mãe e pai e entender que a adolescência é esse período de consternação e não inserção na sociedade. Se você tivesse tido uma suposta infância perfeita, iria usar outras desculpas para justificar seu estado de tristeza e solidão.

Quanto ao seu ex, mantenha distância, não ceda à chantagem emocional. Você não precisa ter contato com isso nem com esse tipo de gente. Ele te machucou e merece ser machucado. E eu conheço pelo menos uma meia dúzia de maneiras disso acontecer... mas são coisas que o seu Deus não permite.

Quer fazer algo com isso tudo que sente e pensa? Leia mais, veja filmes melhores, busque conversar com pessoas que possam te agregar algo, pare de se achar a traumatizada. Não queira ser essa imagem que você tenta passar porque você não é assim! Está mais do que óbvio que busca dramatizar demais a sua história...

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“As pessoas simplesmente não gostam de mim e eu sempre sou impopular”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 86 comentários
Querido Ogro.

Desde que me tornei adolescente, nunca conquistei muitos amigos. No meu colégio, eu era um dos mais desprezados da turma. Na época, eu até entendo, eu era tímido, introvertido, baba-ovo... Mas, eu mudei. Hoje faço faculdade, fiquei mais sociável, converso com todo mundo, tento manter um amor próprio pra não ficar muito babão, só que, ainda assim, eu não fiz quase nenhum amigo novo.

Conheço muita gente, mas muito poucos, talvez nenhum, são meus amigos de verdade. Eu faço o estilo bonzinho educado. Já tentei mudar meu jeito, me tornar mais aquele cara que não ta nem aí, já tentei ficar metido, depois decidi ser eu mesmo, mas nada nunca funciona. As pessoas simplesmente não gostam de mim e eu sempre sou impopular.

Hoje fui a uma reunião da minha turma do colégio depois de 5 anos e percebi que nada havia mudado. Meus ex-colegas continuaram não dando a mínima pra mim, as meninas não me dão moral alguma e, com isso, nem eu mesmo tenho conseguido gostar de mim.

Isso é ruim porque eu acabo não tendo ânimo pra fazer nada, desde estudar até comer. Eu gostaria só de entender porque isso acontece, só pra eu ter uma chance de mudar, de fazer diferente. E, mesmo que eu não consiga, eu só queria saber o porquê. =/

Agradeceria muito se você pudesse me dar uma luz.

Grande abraço.


Meu caro desprezado;

O que seria sua definição para “popular”? Ser amigo de todo mundo, querido por todos? Aquele cuja opinião todos buscam e querem? Ser aquele que vira o centro das atenções em qualquer lugar que esteja? Se for isso, devo te dizer que não fará diferença alguma no que sente: ainda assim se sentiria vazio, sozinho, solitário, à tangente do mundo.

Às vezes tendemos a projetar demais mudanças de posturas nossas como sendo a solução para o que sentimos, como se uma simples atitude fosse resolver todo nosso caos emocional e existencialista. E nessa mudança, tentar aceitar o mundo se adaptando a ele.

Mas isso apenas causará desfiguração. Você não irá se reconhecer. Chegará um dia em que se olhará no espelho e não saberá quem é aquele que te confronta. Fiz isso por alguns anos – começou justamente na faculdade - e quando me vi nesse confronto entre o que eu era e o que o espelho mostrava, me quebrei. Me desfigurei para não ser tanto o que sou e tentar ser aceito pela sociedade. A sociedade não me aceitou do mesmo jeito, não fez diferença para ela eu ser diferente do que eu sou. Mas para mim foi um desmoronamento moral. Me vi de uma forma que não gostaria de ser visto. Não era eu, sabe? Apenas aquilo que esperavam que eu fosse...

Mesmo na adolescência fui assim: não era aquele cara que atraia o olhar das meninas, era sempre o amigo que ouvia as lamúrias e as mágoas causadas justamente por esses caras. Dessa época, mantenho apenas um amigo. Da faculdade, também: apenas um restou. E das poucas amigas que tenho, todas surgiram nos últimos três anos. Aos 30 anos, conto em uma mão as pessoas que quero ter por perto. E acredite: é o que basta. Uma mão de amigos que possam te fazer companhia.

Não ter vários amigos não significa ser impopular. Apenas o meio onde se encontra é infértil para você: as pessoas ao teu redor simplesmente não te cativam a ponto de você se mostrar real para elas. A internet pode te ajudar a se aproximar de duas ou três pessoas e assim firmar laços reais de amizade e lealdade e cumplicidade. Se deixe conhecer por suas opiniões, suas atitudes e não apenas pela forma como tenta se adaptar ao mundo em que insiste em te renegar.

Você não precisa mudar, nem esperar que o mundo mude.
Apenas encontre um mundo onde não sinta essa necessidade de se adaptar.

Quando nos adaptamos a uma estrutura social a qual não pertencemos, soamos falso, não seremos reais. E ninguém gosta de ter pessoas adaptadas. Você aceitaria ter amizade com alguém que te aceite assim, adaptado? Você confiaria em alguém que, pra te aceitar, precisa que você seja menos você? Não... é claro que não.

Amadurecer não é, necessariamente, se modificar apenas por causa do meio onde se encontra. Você se modificará sem perder sua essência, apenas atualizando pensamentos e conceitos. Você será se diferenciará sem ser diferente, se modificará sem se mudar. Com o tempo entenderá melhor isso.

Tentei me mudar e não valeu a pena. Paguei um preço muito caro por isso.
Aceitei que apenas algumas pessoas me aceitarão. E isso valeu a pena e foi libertador.

Se as pessoas não gostam de você, não goste delas também! Se seus amigos de colegial ainda te tratam com indiferença, faça o mesmo: seja indiferente a eles. Será assim daqui alguns anos com o povo da faculdade. E verá a quantidade de falta que eles não farão a você: não sentirá falta deles, tampouco se lembrará da sensação que é estar nesse meio improdutivo socialmente.

Se afunde em aprender e conhecer as pessoas apenas as analisando. Seja o cara que sai da roda, se senta longe e apenas os observa. E se sinta superior assim. Veja o quanto são incapazes de adentrar seu mundo, como carecem de qualidades e competência para que consigam te acompanhar.

Tenha um amigo e pronto. Ou uma amiga. Ou um amigo e uma amiga. É o que precisa para passar por essa fase. Eleja aqueles que terão o prazer da sua sofrível companhia. Se forem aptos a isso, saberão te aceitar assim, como você é. E mesmo que tentem te propor pequenas mudanças, você sentirá que fazem por gostar de você e aceitará agir um pouco diferente em algumas coisas. Fará isso só porque eles pediram e porque confia neles e por saber que essas pequenas mudanças não mudarão o que você é, apenas o transformará em algo maior e melhor.

Aprenda a não gostar do mundo.
Só assim gostará mais de você. Ou se odiará menos. Dá na mesma.

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“Isso desencadeou uma vida libertina, regada a todos os homens que eu quisesse ter, individualmente e grupalmente. Depois me senti vazia”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , , 3 comentários
Querido Ogro.

Eu sei que você tem questões muito mais urgentes do que a minha, portanto tentarei ser breve na minha história. No início desse ano, depois de um termino de namoro muito estraçalhador, resolvi mudar fisicamente e psicologicamente. Fui diagnosticada com depressão, comecei a tratá-la com remédios, iniciei uma dieta por contra própria e fazer exercícios. Nessa brincadeira perdi 13kg em 3 meses e ganhei uma auto-estima arrebatadora. Parecia que tinha me tornado outra, pois estava muito atraente e confiante.

Conheci um homem lindo numa festa e começamos a sair. Estava muito feliz, até o dia em que ele insinuou que queria me levar ao motel. Na época eu ainda era uma menina 'pudica', que não acreditava no sexo casual. Aconteceu que briguei com esse rapaz e não nos falamos mais. Por raiva de ter perdido um ótimo partido, resolvi aceitar o sexo casual pra minha vida. Sendo que isso desencadeou uma vida libertina, regada a TODOS os homens que eu quisesse ter, individualmente e grupalmente.

Essa época desenvolveu-se mim um tipo de 'ninfomania'. Depois de tanta festa e putaria, me senti vazia, à procura de um namorado bem legal pra mim. Depois de um tempo encontrei um rapaz fofo, e não esperei mais de 3 dias para pedi-lo em namoro. Porém, a minha 'ninfomania' não havia desaparecido, e demorou até que o meu corpo e a minha mente se acostumassem com um só homem, de sexo suave e seguro. Até os primeiros meses ele não acompanhava o meu ritmo e fui criando certas dúvidas quanto à esse namoro, mas que por agora digamos que foram superadas.

Porém, o pior aconteceu: parei de tomar meu remédio e engordei o que eu havia emagrecido e ainda mais um pouco. Meu desempenho no âmbito geral de vida diminuiu. A minha sede por sexo foi controlada, mas ainda sim maior do que sempre foi. Por esse motivo, têm sido um tarefa um tanto árdua permanecer fiel, pois eu não posso ver um cara interessante na rua que eu já o fito dos pés a cabeça. E já foi bem pior, a ponto de me molhar ao ver um cara bonito na rua.

Enfim, nessas últimas semanas conheci um rapaz bonitinho na minha turma da faculdade que com o passar do tempo, da convivência e dos trabalhos, começou a dar em cima de mim em peso. A princípio achava que não passava de brincadeira, pois minha auto-estima está baixíssima, apesar de ainda me achar um tanto bonita e atraente. O que acontece que ontem, depois da aula, quando fomos tomar umas cervas na casa de um amigo, entre brincadeiras e outras, estávamos sentados conversando e ele literalmente me atacou de uma forma um pouco bruta, e como eu já estava mais solta por causa da bebiba, o correspondi. E ficamos de tal forma que ele queria dormir comigo lá mesmo.

Meu tesão e minha safadeza quando bebo e quando me sinto auto-confiante fica tão grande, que me segurei para também não convidar o dono da casa, que é casado, para ficar comigo. Eu amo o meu namorado e estou me sentindo muito mal com essa situação, apesar disso me trazer um certo prazer.

O que eu quero dizer com esse testamento é, o que faço com essa 'ninfomania'? O que faço agora com o meu namorado? Conto o que houve? Por que não posso ser uma mulher normal, com um tesão normal?

Eu já sofri muito por causa disso, mas ainda assim tenho resquícios de toda essa ânsia dentro de mim. Pra você ter uma ideia, acredito que meu cunhado já tenha dado um certa bola pra mim e já sonhei que ficava com ele, o que seria absurdo! Eu quero voltar a ter uma libido normal e ser fiel. Não aguento pensar no fato que sou guiada mais pelo meu sexo do que pelo meu caráter. Está sendo muito difícil ficar recusando convites de ficantes passados e novos pretendentes. Fico muito tentada.

Bom, não sei mais o que dizer. Acredito que seja só isso. Saiu mais como um desabafo do que como uma dúvida. Espero que tenha sido bem clara e que possa me ajudar a alivar essa tensão que vivo na minha vida.

Um beijo grande e sucesso sempre.

Minha cara tarada,

Que fogo nessa buceta, hein, mulher? Isso é a alegria dos solteiros mas a perdição dos apaixonados... apaixonados por você, óbvio, não pela sua buceta.

Você compensou suas frustrações e carências no sexo. E da forma mais arrojada e despudorada possível, para que assim não fosse tomada por algo devastador como foi o fim do namoro que culminou nessa postura. Notou como foi só engordar de novo que sua libido ficou mais amena? Porque se sente feia, se sente não-desejada e, consequentemente, para de se estimular internamente. Foi só você emagrecer que foi compensar com todos. Individualmente e grupalmente (coçou a mão para pedir detalhes desse “grupalmente”, mas enfim...).

Alie a isso uma depressão recém-tratada, onde tudo na vida tem um gosto diferente depois e a vontade de compensar o tempo perdido fica aflorada. Como estava puta com o fim do namoro e com a vacilada na negativa ao sexo casual do homem lindo, foi tentar ser puta pra valer pra ver se deixava de ser burra. Aposto que usou essas exatas palavras: “vou deixar de ser burra pra aprender a curtir a vida e gozar enquanto é tempo”. Ou coisa parecida...

Você se jogou nessa devassa achando que a putaria toda iria compensar a perda da relação que para você era um porto, mesmo que à deriva. Ficou perdida e tentou se encontrar se perdendo. Porque já estava perdida, apenas não viu o caminho se perdendo ao longo dos meses. Estava atrelada a uma mentira certa que se tornou uma verdade falida.

É normal algumas mulheres – e homens – terem uma fase de tesão extremo, que trepariam até com poste só porque ele piscou pra você. Mesmo numa relação estável, a libido fica lá em cima e não há pau que dê cabo dessa porra toda. É natural, é saudável... desde que não desencadeie esses conflitos emocionais que tanto fodem sem foder (mesmo fodendo tanto). Olhar um cara bonito e se excitar é normal. Não se ache uma aberração por conta disso. Sua vizinha toda pudica faz o mesmo, sua mãe também, sua amiga, sua avó, sua sobrinha, sua...

Mas o fato de sentir esse tesão não quer dizer que precise fazer algo com ele. Pode fantasiar com o próprio namorado, oras. Ou se masturbar no banheiro do trabalho, da faculdade. Ou mesmo no trânsito, porra! Por que é difícil se manter fiel apenas porque sentiu atração por outro? Seja menos extremista, né!

Bom, aí chega o namoro novo. Em três dias, o pediu em namoro. Viu como compensa a frustração e carência? Seja em muitos homens ou em um só: vai com toda sede ao pote pra saciar a sede que não sabe do que é, apenas a sente. Compensa o vazio interno tentando se preencher de outros ou de um só. O princípio é o mesmo: sente sede e sai bebendo qualquer fonte só pra ver se isso vai saciá-la.

Não sacia. Vê como logo depois ficou em dúvidas sobre ele e a relação? Se tivesse esperado um pouco mais, veria que talvez ele fosse apenas fofo, mas não o suficiente pra ser um namorado de papel passado.

Voltam as dúvidas, volta a insegurança, volta a sede... e lá corre ela procurar outra fonte. Ou outras! Surge outro cara investindo, ela corre beber pra matar a sede – alegando baixa auto-estima – e o que volta com isso? A pseudo-saciedade. E depois, o que volta? A duvida, a incerteza... a sede!

É entrar na piscina e ainda pedir um chuveirinho.
Vê como é um processo cíclico?

A primeira coisa que precisa fazer é aceitar que essa condição é uma fase e não uma disfunção física ou mental. É mais fundo emocional do que você imagina. Na hora irracional do tesão, tente se perguntar o porque está daquele jeito. Do que exatamente sente falta e porque se sente tão impulsionada a ceder aos impulsos. Seja menos visceral pois já comprovou que depois se sente mal e a meia hora de putaria se transforma em semanas de arrependimento e agonia e auto-flagelação.

Talvez esse cara que esteja hoje seja apenas uma muleta emocional como todos os outros foram. E quando se vê sem elas, você sai mancando por aí, esperando que alguém a coloque de quatro para que não precise, naquele momento, caminhar sozinha.

Tente repassar o momento em que estava quando sua vida foi modificada por esse término de namoro que causou toda essa porralouquice. O momento em que estava e onde a relação estava seguindo na sua concepção. E como isso te afetou a ponto de se desfigurar tanto!

Se toda essa libertinagem te fizesse bem, eu nem falaria metade disso. Porque não é um comportamento recriminável se te faz bem e não causa mal a ninguém. Mas não é bom pra você... Pode ser para eles, que estão atrás de uma buceta fácil. Mas você precisa do colo, dos olhos, da voz, do ombro, do coração. Somente um pau está sendo pouco pra você.

Por que não tenta canalizar esse fogo todo com o namorado? O que ele não tem que todos os outros têm? Ou será que todos eles não têm algo em comum? Pode até ser uma buceta, vai saber... Já experimentou? Pode ser uma boa, viu?

O problema não está nos outros nem em você: o problema é que não sabe pra onde canalizar tudo isso que sente. Ao mesmo tempo que sente tudo, sente nada. E isso é foda, confunde a cabeça, o pau, a buceta, o coração e a puta que nos pariu, inclusive...

Descubra a fonte de sua sede e sua sede encontrará uma fonte.

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“Sou paciente psiquiátrica, estudante de psicologia, e estou atraída por um esquizofrênico...”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 7 comentários
Querido Ogro,

Descobri seu blog por acaso mas achei interessantíssimo, especialmente a forma como vc trata os assuntos e os bons conselhos que dá as pessoas. Você tem alguma formação em saúde mental? Psicologia ou algo assim? Parece ter.. bom, eu tenho (ou quase).

Curso o sexto período de psicologia, mas antes de aprofundar nisso preciso revelar uma informação crucial e que fará toda a diferença no meu relato: eu sou paciente psiquiátrica. Meu diagnóstico ainda não está fechado, até porque devo possuir algumas comorbidades, mas ao que tudo indica sofro de Transtorno de Personalidade Borderline. E desde a adolescência visito psicólogos e psiquiatras e nenhum deles conseguiu resolver muita coisa, até que eu mesma decidi me ajudar e cursar psicologia... e tem funcionado até certo ponto. Aprendi a conviver e a neutralizar certas características da minha patologia e ter uma vida um pouco melhor (eu costumava praticar auto-mutilações, por exemplo. Fazia cortes por todo o corpo quando estava em crise, tenho muitas cicatrizes, hoje já tenho auto-controle suficiente pra não fazer isso).

Pois muito bem: esse semestre comecei a fazer estágio específico em psicopatologia no ambulatório de um centro psiquiátrico aqui e adorei. Acho que não existe nada na minha vida que eu goste tanto de fazer quanto ir pra lá. Meu estágio consiste em ser auxiliar da psicóloga de um grupo de terapia coletiva. E aí é que as coisas começaram a ficar confusas. Pois eu sei qual é meu papel lá, meu papel lá é o de terapeuta.... mas quase sempre acabo me colocando no papel de paciente sem querer. É bom estar num lugar onde todos entendem você, sabem pelo que você passa, sabem como é ficar dopado de remédios, sabem dos preconceitos e não tão nem aí se você é um pouco estranho ou age de forma diferente do convencional, afinal, todos lá são meio assim mesmo. E todos se sentem muito felizes em conversar com você, possivelmente porque quase todo paciente psiquiátrico é extremamente carente. Ainda mais os do meu grupo que são, em sua maioria, esquizofrênicos hebefrênicos e paranoides.

Mas então surgiram muitas dúvidas na minha cabeça, dentre elas foi: devo ou não contar pra minha supervisora de estágio e para os meus pacientes que eu também sou portadora de transtorno mental? Será que isso geraria mais empatia da parte deles comigo por nos tornarmos mais "iguais" ainda e facilitaria o processo terapêutico? Ou será que causaria insegurança?

Uma amiga psicóloga me aconselhou a não falar nada, e assim o fiz. Até 15 dias atrás quando entrei em crise (eu havia parado meu tratamento há quase um ano, sem remédios, sem terapia e com uma vida muito corrida, problemas familiares e stress... tinha que dar nisso, né?). Voltei então a me tratar com um psiquiatra e ele me passou três remédios fortes de uma só fez. Isso me deixou extremamente dopada. Me disseram que demora mesmo algumas semanas até ajustar a dosagem certa e o organismo se adaptar, mas desde então ando com um aspecto tão diferente que todos notaram. Meus colegas de classe e até professores.

Tirei uma licença médica por causa disso, mas continuei indo ao meu estágio no centro psiquiátrico, pois como disse, é a coisa que mais gosto de fazer na vida. Chegando lá, uma das minhas pacientes hebefrenicas mais "ruimzinhas", me percebeu, olhou e perguntou o que eu tinha, se eu estava com sono. Eu respondi que não, que era por causa dos remédios que eu estava tomando, no que ela imediatamente retrucou "Ahh, eu sei como é" (por isso amo aquele lugar, ninguém te julga, todos te entendem, eu me sinto acolhida e entre iguais).

Agora vou dar uma retrocedida rapidamente para mencionar que eu tenho um namorado e estamos juntos há muitos anos e eu não tenho dúvida de que amo ele e é com ele que quero me casar e ter minha vida. Mas ele não é muito compreensivo com transtornos mentais, pra ele tudo é "frescura", embora nesses últimos tempos ele tenha se mostrado mais companheiro.

Agora voltando ao centro psiquiátrico... No meu primeiro dia lá eu conheci um paciente e tão longo bati os olhos nele (que por sinal é muito bonito) senti algo muito estranho. Senti que estava de alguma forma ligada a aquela pessoa.

Fui criada dentro da doutrina espírita, embora hoje eu seja agnóstica, mas certamente o espiritismo diria que eu já provavelmente devo ter conhecido ele em outra vida.

A química e tensão sexual que senti também me apavoraram, tanto que eu até evitava falar muito com ele. E eu acho que ele sentiu a mesma coisa ou talvez ele só tenha refletido a minha energia, pacientes psiquiátricos são ótimos com empatia... ou talvez tenha sido o contrário, eu refleti a dele, afinal eu também sou paciente psiquiátrica, embora ali meu papel seja outro. Mas desde esse primeiro dia, ele me trata diferente das outras estagiárias. Ele passa boa parte da sessão olhando fixamente pra mim, com aqueles olhos azuis. Ele fala mais comigo que com as outras estagiárias e sempre tenta puxar assunto comigo, embora eu ache que ele não saiba muito bem como. Afinal, acredito que apesar dele ter seus 38 anos (eu tenho 26, a propósito), eu diria que ele tem a cognição de um garoto adolescente... e mesmo fisicamente ele aparenta ter ainda uns 20 e poucos. Ah, ele também decorou meu nome em 2 segundos, no primeiro dia, das outras até hoje ele esquece as vezes, o meu jamais.

A questão é que eu nunca senti isso com ninguém na vida, de bater os olhos na pessoa e sentir uma conexão quase mística. Eu nem acreditava que isso era possível. As vezes penso que realmente nossos destinos estão cruzados de alguma forma... ou talvez seja só meu cérebro doente saindo da realidade e fantasiando, quem sabe. O Marcos também nunca contou pra ninguém seu diagnóstico. Outra estagiária chegou a perguntar diretamente ''Você é esquizofrênico?" e ele disse que não, que ele tinha era problema auditivo e ouvia vozes (haha?), a estagiária achou que talvez fosse um mecanismo de negação dele (hoje eu sei que era só vergonha mesmo. esquizofrênicos têm muita vergonha de admitir o que são por conta do preconceito e do estigma que a sociedade lhes impõe).

Bom, há duas semanas eu até sonhei com ele (e pior que eu nem havia pensado muito nele naquela semana), no sonho eu o ajudava em alguma coisa que já não recordo. Então decidi vencer meu medo de me aproximar dele e falar com ele. E na sessão de terapia de ontem (a mesma que eu estava dopada dos remédios) sentei do lado dele e puxei conversa. Falei que eu estava em tratamento também e meio grogue dos remédios. Falei o nome do meu psiquiatra e ele disse que até conhecia. Perguntei se ele sabia o diagnóstico dele, ele disse que não, e novamente insistiu no tal "problema auditivo", então comecei a perguntar dos sintomas, ele disse que falava sozinho, eu disse que eu também falo, que todos falam sozinhos às vezes. Ele falou então das vozes que ele ouve e que mesmo com os remédios ele ainda as ouve. Eu perguntei se ele conversava com elas e ele num sorriso meio constrangido afirmou que sim. Nós rimos e mudamos de assunto, estava tendo uma festinha nesse dia, no lugar da terapia propriamente dita e ele começou a me dar dicas do que comer e beber quando se está dopado de remédios. No final, eu estava meio tonta por causa da minha medicação, e minha carona ainda ia demorar pra chegar, eu então pedi que ele ficasse me fazendo companhia, pra eu não ficar esperando sozinha e talvez passar mal, ele concordou. Outra paciente se juntou a nós, uma que tem síndrome do pânico, e ficamos conversando. Até que em dado momento, completamente do nada ele parou, virou pra mim e disse com o mesmo sorriso constrangido (que eu achei tão fofinho) "É, eu sou esquizofrênico mesmo..", eu só ri e disse "É, eu sei!". Do ponto de vista terapêutico esse acontecimento foi algo incrível. Ele nunca tinha se sentido à vontade pra falar isso pra nenhuma outra estagiária ou psicologa, mas se sentiu a vontade e confiante de falar pra mim. E eu acho que talvez tenha sido pelo fato de eu ter compartilhado também com ele a minha fragilidade, a minha doença, tudo que me disseram pra NÃO fazer... mas que deu certo.

Depois disso, demos carona pra ele pra casa, e ele não parou de falar o caminho inteiro, fazendo mil perguntas (faz parte da patologia dele), no final eu perguntei de qual das estagiárias ele gostava mais e ele disse, sem demora, que era de mim e completou "por causa do teu cabelo", deu 2 tapinhas na minha cabeça e saiu do carro sem maiores explicações. E eu estou até agora tentando entender o que ele quis dizer com o meu cabelo, já que meu cabelo é normal como das outras estagiárias.

Enfim, contei essa história à uma amiga e ela disse uma frase muito engraçada, que "eu estava afim de um maluco". Eu ri e neguei na hora, mas depois pensando bem, eu acho que realmente estou afim dele. O que é inconcebível de todas as formas possíveis. Primeiro porque é inteiramente anti-ético, segundo que eu sou muito perfeccionista, gosto de tudo direitinho, tenho o namorado perfeito, vou ter a casa perfeita, a família perfeita. O que eu poderia ter com ele? Nada!

Ele não trabalha, ainda nem conseguiu o auxilio do INSS dele e acho que ele tem bem pouca maturidade cognitiva e emocional. Mas quando estou com ele, tem essa coisa de puro ID (principio do prazer da teoria psicanalítica) mesmo, há uma tensão sexual muito grande, uma química, uma coisa inexplicável e eu me sinto extremamente idiota por sentir isso. Ao mesmo tempo eu acho que se, algum dia, ele conseguir namorar e casar (o que é dificil na condição dele), seria muito bom pra ele que fosse com alguém que entende o problema dele, que saiba contornar as crises, uma... psicóloga.

Se eu realmente fosse terapeuta dele e ele meu paciente, o mais ético a se fazer seria encaminhá-lo a outro profissional... masssss, eu sou só estagiária. Mas ainda assim, é inapropriado. Especialmente porque nem cogito a possibilidade de terminar meu namoro perfeito (aliás, vale ressaltar que meu namorado foi o primeiro e único homem da minha vida até hoje, se é que me entende) pra ficar com alguém que não tem nada a me oferecer. E ainda por cima é meio "abestalhado", eu sempre me senti atraída por caras poderosos e inteligentes... eu não consigo entender o que há entre mim e esse cara.

Todavia, eu gosto dele e queria ser pelo menos AMIGA dele.

Pacientes esquizofrênicos costumam ser desconfiados e ter poucos amigos ou nenhum. E ele não faz nada em casa, só toma remédio e vai toda semana pra essa terapia em grupo há oito anos. Eu acho que eu posso, como amiga, tentar dar mais empoderamento a ele, melhorar o prognóstico dele, chamá-lo pra um passeio e com meus conhecimentos acadêmicos tentar ajudá-lo de alguma forma. Porque sei que existem esquizofrênicos que trabalham e conseguem ter uma vida produtiva e útil a sociedade, sei também que só o fato de se ter um amigo de verdade, em quem você confie, já ajuda muito.. Eu mesma sinto falta de ter amigos assim, se não, não estaria escrevendo pra você, querido Ogro.

O maior exemplo foi esse, de em uma manhã de conversa eu ter feito progressos terapêuticos com ele que ninguém fez em anos. Mas eu me sinto insegura se devo realmente fazer isso, se devo e posso ser amiga dele, se isso não vai "pirar" a cabeça dele e ele achar que somos algo mais e prejudicá-lo. Outra coisa que me perturba nesse meu estágio é também qual meu papel, afinal? Sou terapeuta? Sou paciente? O que eu sou?

Me diga, querido Ogro, o que eu devo fazer??


Minha cara insanamente normal,

Não tenho nenhuma formação específica, não. Sou jornalista e sempre ouvi as pessoas e sempre tentei montar os quebra-cabeças que são os problemas humanos. Eu tento... e tento, assim, consertar um pouco os meus também. E são muitos, acredite. Atualmente estou mais quebrado do que consertado, mas enfim...

Pelo que me falou, conhece razoavelmente seu problema, até por estudar toda a ciência e saber identificar as razões e emoções que a cercam. Isso de se automutilar muita gente acaba fazendo como uma forma de exteriorizar o que sente, é um masoquismo temporal. Minha sobrinha passou por isso uma época, tenho conversado veladamente com uma menina aqui que também faz o mesmo (no caso dela, ela foi abusada pelo tio na adolescência). Mas que bom que conseguiu controlar esses excessos...

O que vejo é: você projetou coisas demais nessa pessoa por ter tido uma atração física. O tesão, quando bate, confunde todas as nossas sinapses. Só que você acabou transformando isso logo em uma questão astral, uma coisa de outra vida... Entendo perfeitamente quando fala sobre o fato dele ter se assumido pra você, contando o problema dele. Eu me sinto assim aqui, quando as meninas chegam me contando sobre os abusos sofridos, coisas que nunca contaram pra ninguém e, por algum motivo, quiseram contar só pra mim. Isso mexe com nossa cabeça, essa importância que nos dão.. e é um peso perigoso às vezes.

No seu caso, o processo de transferência foi ao contrário. Geralmente é de paciente pra médico, mas você inverteu, pois se sentia médica dele e acabou se envolvendo além do esperado. Tanto é que se colocou como sendo a “esposa ideal” caso ele venha a se casar, pois você o entenderia e saberia como lidar com o problema dele. E tudo isso por que? Porque ele a fez se sentir única no mundo. Você realmente acredita que seja tudo para ele por conta da confiança que ele teve em você de forma tão fácil e natural, não é? É uma sensação mágica, um poder incrível se sentir assim por alguém. É como se você realmente fosse visto e nitidamente visse alguém.

Mas é aí que a mente nos trai.

Porque é aquela porra de comportamento espelho... Encontramos, no outro, coisas que fazemos e sentimos e, assim, cria-se uma similaridade, uma projeção mútua. E deixamos passar coisas pequenas que acontecem em volta mas que são essenciais para a compreensão do que está nos acometendo no momento. Isso porque estamos falando do tesão que sente, hein? Não estou falando de casos onde você se envolve profundamente com alguém e depois, do nada, se vê sem aquele chão que tanto demorou para pisar. Aí seria ainda mais complicado...

Por exemplo: me disse que só teve seu namorado de homem... e tem 26 anos. Porra, deve ter um tesão do caralho e só a lembrança sexual do seu namorado não está sendo suficiente. Aí qualquer mané de olhos azuis que surgir fará você tremer as pernas e a buceta. Aí você fica toda apaixonada, toda confusa e se masturbando antes de dormir, pensando nele. Até aí é normal e toda mulher, casada ou não, passa por isso. Mas precisa se situar...

Se quiser realmente ajudá-lo, saia dessa posição da vida dele. Pois poderá regredi-lo mais do que o normal em qualquer relação. Até pode ser amiga dele, mas terá de deixar muito claro isso pra você: nada pode acontecer entre os dois.

Ainda está se achando demais pra ele, que você vai conseguir fazer o que nenhum médico fez em oito anos. E até pode mesmo, mas espere e dê um tempo para tudo se encaixar melhor. Como futura profissional, sabe o quanto algumas intervenções podem ser ótimas e outras um completo desastre.

Você é a quebrada tentando consertar os cacos dos outros... e eu entendo perfeitamente isso. Só que está indo pelo lado errado. Vá pelo carinho, vá em busca da compreensão e da gratidão alheia. Deixe o tesão de lado, se for o caso saia com outro homem só pra te aquietar um pouco esse fogo.

Queira apenas a gratidão por ter ajudado alguém que você sabe que pode ajudar, que você sabe que não vai julgar nem apontar dedos, que você vai entender a dor e, assim, levar um pouco de acolhimento. É o que eu faço aqui... é o que você veio buscar... é o que todos nós buscamos: nos perpetuar na vida de alguém de alguma forma.

Se perpetue sendo a mão, o ombro, a luz da sanidade e a sombra do conforto.

Não se permita viver uma história que não poderá, de fato, vivê-la.
Os ferimentos serão maiores do que você pode imaginar...
Não vai querer viver sabendo que destruiu alguém.

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“Aos 15 anos meu pai me viu namorando na praça e ao chegar em casa fui recebida com socos e pontapés. Diagnóstico: três costelas trincadas, deslocamento da mandíbula...

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 6 comentários

Querido Ogro,

 Nem sei como começar, são tantas questões que me inquietam e perturbam que fico perdida. Tenho 30 anos, bem mal resolvidos. Acho que nasci na época errada, na família errada, no corpo errado...

.Sou do interior da Bahia, onde a palavra do pai é lei! Minha família toda é evangélica daqueles bem conservadores e as lembranças que tenho são de que tudo era errado, proibido e me levaria ao inferno. Aprendi a não desafiar as regras ou fazê-lo de forma a não ser descoberta e assim aprendi a mentir que, modéstia a parte, é o que faço de melhor.

 Aos 15 anos meu pai me viu namorando um garoto na praça da cidade e ao chegar em casa fui recebida com socos e pontapés. Minha mãe estava na igreja e fui socorrida por dois vizinhos que escutaram meus gritos, um deles médico, me levou para o hospital. Foi preciso dois homens para tirar meu pai de cima de mim. Diagnóstico: três costelas trincadas, deslocamento da mandíbula, escoriações e contusões por todo o corpo.

 No hospital fui tratada como vagabunda. A notícia espalhada era que meu pai tinha me encontrado na cama com um cara casado. Minha mãe só sabia se repetir dizendo que ele tinha feito aquilo pra me educar, que eu não devia ter feito o que fiz e eu sem entender o que de tão grave tinha feito para receber aquilo. Voltei para casa com a sensação de estar entrando num inferno. Minha mãe se dizia mortificada, minhas irmãs riam de mim descaradamente e minhas melhores amigas, todas da igreja, foram proibidas de falar comigo. Aguentei isso por dois anos até concluir o ensino médio. Nesse tempo engordei quase 30 quilos, virei uma rebelde – na minha cabeça, rebelde com causa.

 Aos 17 anos sai de casa. Vim para Brasília com a mala e uma proposta de emprego como babá. Tive sorte de passar no vestibular e seis meses após sair de casa estava morando numa república estudantil e aí comecei a viver tudo que eu nunca pude! Beber, fumar, cheirar, pra mim isso era o supra-sumo da liberdade, fiz tudo, com muita fome e ansiedade.

 Meu único problema foi, e ainda é, o sexo. Adoro tudo que diz respeito a sexo, sou ultra libidinosa mas na hora H... não consigo sentir nada! Leio tudo que aparece sobre o assunto, me mostro a expert, mas a transa pra mim é uma negação. E não é por falta de esforço. Já tentei de tudo: transei com mulheres, fiz um ménage a trois, realizei fantasias, mas é tudo vago, fico oca. A cabeça viaja e me vem a questão: “por que estou fazendo isso?” e continuo a fazer. Não consigo ter um relacionamento longo com ninguém. Sinto-me usada, gastada, é como se eu fosse forçada e invadida pelo outro por mais “apaixonada” que eu pense estar.

 Nunca gozei com alguém, com o toque de outro, nunca. Não é nada físico, já investiguei. A cabeça também já foi analisada, medicada e controlada. Tô no fundo do poço. Parece tão banal depois de ter lido tantas histórias em seu site mas, pra mim, tá sendo questão de vida ou morte.

 Sou sozinha. Tenho um bom emprego, casa, carro – essa parte da vida tá bem encaminhada. Não tenho relação com ninguém da minha família desde o episódio acima relatado, apenas contatos ocasionais por telefone com uma sobrinha que me mantém atualizada. Tenho crises depressivas perenes que oscilam entre a euforia e destemor a uma profunda escuridão e inércia (que é como me encontro no momento). Há dois anos não me relaciono com ninguém, perdeu o propósito. Estou há quase um ano apaixonada platonicamente por um colega e não consigo me aproximar, afinal já passei por isso umas mil vezes. Gostaria de ser corajosa o suficiente para por um fim em tudo, mas não tenho peito pra assumir as responsabilidades.

 Me sinto como uma adolescente que não consegue discernir amor de carência e vou evitando dar vazão a qualquer um desses sentimentos seguindo os dias emudecida, sem cor, sem sabor sem viver. Não espero uma resposta salvadora, acho que só precisava desabafar.

 Obrigada por dar voz a tantas dores, parabéns! Você é o cara.

Sinceramente, sua mais nova fã.

Minha cara Tieta;

Seu pai foi um tremendo filho da puta, hein? Evangélicuzinho de merda esse... Nessas horas dá vontade de mandar enfiar a porra da Bíblia no cu. De que adianta ser um “homem de Deus”? Pra mostrar pros outros que tem fé e que tem a alma salva? Vai lá chupar o pau do pastor, então!

Justamente na fase onde você estava formando seu caráter social, aprendendo a questionar o ambiente onde vivia, o idiota te repreende com tamanha truculência por um ato inocente e natural em qualquer adolescente: a descoberta da sexualidade e a vontade de dar vazão aos desejos. Talvez se tivesse acontecido uns dois anos depois, sua postura seria diferente. Mas estava justamente nessa porra de fase de formar um tipo de caráter sensorial da sociedade que perdura pela vida toda. Os 15 anos são fodas, mesmo! Mais até do que os 18...

Resultado: você passou a repudiar qualquer presença sexual na sua vida.
É, apesar de sempre usar o sexo como uma arma, você o recusa como algo vital e necessário.

Justamente por tratá-lo como descartável, por fazer dele algo meramente ilustrativo. Foda-se que tenha feito putaria com mulheres, com homens, com poste ou pés de mesas: você simplesmente não quer que o sexo tenha um fator predominante em suas relações e, consequentemente, em sua vida.

E sabe como dá pra saber disso?
Por você nunca gozar!

Você ainda sente, inconscientemente, que será repreendida com porrada por deixar o tesão fluir. Você disse que se vê como uma adolescente porque é a verdade: ainda é aquela menina namorando na praça, que apanhou pra caralho do boçal ignorante do pai e foi publicamente exposta como uma “vagabunda”.

Justamente por isso, por ainda ver o mundo como sendo aquele ambiente proibido e hostil é que você não consegue se desapegar de certas amarras que te prendem àquela praça. Por isso aprendeu desde cedo a mentir: é uma forma de não ser punida e, ao mesmo tempo, conseguir “sambar” na cara da sociedade e montar um personagem ideal. Era e é a fodona que pouco se importa com o que os outros falam, mas no fundo é o que mais te incomoda. Ainda dói sequer ser vista como a vagabunda que “deu pro cara casado” e foi linchada.

Por isso você sustenta a personagem: é fodona, dá pra caralho, curte qualquer coisa que vier, bebe, fuma, cheira... enfim: é “livre” daquele inferno.

Mas ainda está atada à praça.

É uma porra isso: a presença do pai em cada homem que procura. Ou você busca tipos parecidos pra tentar entender e se revoltar menos, ou busca perfis completamente diferentes justamente pra esfregar na cara e alimentar a revolta.

Tanto é que adora um amor platônico, não? A ausência do sexo faz disso algo menos recriminante aos olhos da adolescente aí dentro. Mas é só chegar a porra da porra e tudo fode sem foder!

Enfim: o que há de ser feito?
Basicamente: precisa tomar no cu!

Ou você assume que vai ter de se foder ao tentar algo diferente e ainda assim aceita as conseqüências ou vai ficar sempre nessa oscilação sentimental. Não tenha medo de se foder pra valer em uma relação. Isso é normal, todo mundo se fode de algum jeito. Mas uma hora a gente acerta. E você já tem bagagem pra acertar, não?

Precisa olhar para trás pra conseguir olhar para frente. E se for preciso chacinar os demônios lá trás, então o faça! Pegue tudo o que te incomoda e taque fogo. Faca uma fogueira mental, queime naquela mesma praça todos os vestígios do que tanto te machuca e te furta o ar. Pare de sempre recorrer à adolescente traumatizada. Deixe-a livre dentro de você...

Esqueça que deva perdoar seu pai ou sua família pelo que fizeram. Apesar de ser dolorido isso, se viver sempre esperando chegar o perdão em você, irá perder um puta tempo com isso. O que precisa é mostrar que, independente do que te aconteceu, conseguiu sobreviver e ter uma vida sem eles, que encontrou alguém que veja toda essa sua história e, ainda assim, aceite o “desafio” de viver uma relação séria contigo, que te entenda, que não te julgue e te ajude a superar todos os percalços.

Eles foram errados, não você. Agora que se fodam: perderam a chance!

Todo mundo traz dores e sombras dentro do peito. E não há dor mais ou menos nobre do que a outra: o que você sente é real, é verdadeiro, te joga no chão pra valer. Por isso mesmo que precisa conviver com isso. Achar que se desfazer dessas penumbras vai te fazer melhorar é um grande erro.

Ter todo esse paradigma só te fez represar a mulher que precisa ser: de fato, livre.
Eu diria até selvagem, por que não? Já está na selva, mesmo... Aprenda a usar a luz, mas saiba que caminhar entre a escuridão é o que faz toda a diferença.

Continue a beber pra afogar um pouco as mágoas. Leia algo que aparente ter sido escrito pra você. Ouça uma música que te defina melhor do que você mesmo poderia definir. Escreva algo denso, algo cruel sobre sua dor. E depois respire.

Se permita ser “normal”. Não tenha medo da vida aqui fora.
Ela é uma merda, mas a gente adora assim mesmo.

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“Minha sobrinha de 9 anos mente muito articuladamente e rouba...”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 3 comentários
Desculpe não começar com o "Querido Ogro", mas inicialmente gostaria que me tirasse uma dúvida: trabalha com crianças? Sou uma tia que procura ajuda pra minha sobrinha de 9 anos que mente muito articuladamente e rouba... Vou te contar o que acontece em relação às mentiras e por cima como é a vida dela até hoje.

Há quatro anos nos mudamos para o interior de São Paulo. Antes de virmos pra cá, ela tinha uma boa relação com a mãe e nós da família, que sempre tentamos educá-la da melhor forma possível, com muito amor e valores. O pai sempre foi péssimo, brigava com a mãe dela e com a gente na frente dela, mas saiu de nossas vidas rapidamente e ela continuava sendo carinhosa, brincalhona, enfim, era criança.

Depois que viemos pra cá, minha irmã se casou com um homem bem mais velho e com filhas, duas que moravam com eles. Só que essas meninas sempre foram de minimizar minha sobrinha. Pedimos pra minha irmã deixá-la aqui com a gente, mas ela não aceitou, o que frustrou um bocadinho a minha sobrinha.

Ela já estava com o comportamento bem diferente, estava mias ríspida e bem aturdia, e dizia preferir ficar aqui em casa. Da primeira vez que aconteceu, ela fingiu ter encontrado R$ 50 no banheiro do cinema com a minha mãe no shopping e nem desconfiamos, até compramos um sapatinho pra ela com o dinheiro "achado". Em outra vez, ela disse para minha mãe que tudo que ela pensava acontecia e que ela queria achar R$100 e foi passear de novo com uma tia da minha mãe... e "achou" os R$100 trocadinho! Só que minha mãe já desconfiava dela e tinha contado o dinheiro que guardava antes de sair.

Tentamos conversar com minha sobrinha e ela negou até o fim, mas vira e mexe sumiam coisinhas aqui em casa, tipo um batom, brinco, essas coisas pequenas. E já sumiu uma quantia pequena de dinheiro na loja da minha irmã. Conversamos com uma psicóloga amiga da minha mãe e ela foi falar com minha irmã, mãe da menina, mas ela ficou receosa de contar para o marido e nada fez. Só que a filha mais nova do marido dela tem a idade da minha sobrinha e faz mais ou menos as mesmas coisas que ela.

Recentemente ela levou um sapato da minha irmã mais nova escondido dentro do casaco! Mas a mãe dela viu o movimento das duas no banheiro da loja e devolveu o sapato, mas antes dela sair daqui a minha mãe tinha perguntado o que era aquilo no casaco dela e ela disse que não era nada... Enfim, ela sempre mente quando é "pega" e não mostra arrependimento nenhum, nenhuma das duas meninas demonstram...

Nós aqui de casa queríamos trazê-la de volta pra cá, mas a minha irmã não aceita. Já estamos procurando um psicólogo que possa cuidar das duas meninas, mas se de repente você pudesse me dar uma ajuda, mesmo que seja só sua opinião, só para que possamos nos nortear melhor seria ótimo.

Me desculpe tomar seu tempo. Obrigada.


Só pra esclarecer uma coisa: eu não “trabalho” com nada, apenas dou minha opinião sobre o que acontece. Não sou profissional, tampouco sou formado, sou o famoso “palpiteiro”. Só pra constar mesmo, ok?

Bom: pode ser que a influência da outra faz sua sobrinha agir assim pra se sentir inserida. Tipo aquele adolescente que fuma porque todos do grupo fumam e tiram sarro dele porque não faz o mesmo. Isso pode ser também disputa por atenção, onde ela rouba pra compensar a falta de "amor" que recebe em casa, já que agora o amor é dividido e ela tenta compensar se apropriando do "amor" alheio.

Assim como pode revelar uma simples adaptação, gerando pequenos transtornos, pode ser que algo mais grave esteja acontecendo: às vezes crianças dão sinais "estranhos" quando vítimas de algum tipo de abuso. Pode ser exagerado cogitar isso, mas pode ser que não... É preciso se cercar de hipóteses e, nesse caso, nunca é demais abrir os olhos. O fato de ser uma mudança brusca com um outro homem na vida da mãe é algo a ser realmente levado em conta. A própria atitude da mãe, com medo dele, pode ser um indício.

Uma conversa com a menina, sem acusações e sem complacência, deve emitir alguma luz. Não dá pra chegar apontando o dedo pois corre-se o risco de afugentá-la e estimular outros atos, assim como também não dá pra minimizar demais, pois é perigoso acostumá-la à prática. É preciso reforçar que todo bem deve ser conquistado e não tomado assim. Tudo sem humilhá-la, já que a vergonha será um fator presente quando for pega. O famoso “e se alguém pegasse algo seu que você gosta muito?” sempre ajuda a estabelecer um parâmetro.

E, claro: botar a mãe no lugar de mãe, né? Cobrar responsabilidade dela nessa situação delicada, perigosa e presente na realidade da família. Mas faça isso longe do marido e das filhas dele. Pode ser que a presença dele a iniba e a impeça de se abrir ou de ouvir sem filtros auto-impostos. Ou ela apenas está fazendo "birra" do tipo: "na minha filha mando eu... HUNF!".

Como disse: pode ser só uma fase de adaptação ao mundo novo ou um silencioso grito de socorro. As influências recebidas e os sinais emitidos dão brecha para as duas interpretações. Um profissional é o mais indicado para saber identificar de onde vem esses sinais.

E enquanto isso, fique atenta.
É preferível errar pelo excesso do que errar se omitindo.
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"O que fazer para cortar o circulo e passar a trilhar uma reta e não mais o maldito circulo?"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Imagina isso: parece que toda a sua vida é um circulo repetitivo de eventos onde você vive escolhendo o caminho errado, ou assim parece. O que fazer para cortar o circulo e passar a trilhar uma reta e não mais o maldito circulo?

E quem disse que a vida tem de ser uma trilha reta? Onde está escrito isso? Não há uma maneira certa de viver, apenas há a maneira que encontramos pra sobreviver, aquela que nos mantém respirando mesmo que ofegantes.

Chega dessa história de romancear demais a vida. Isso é um porre ilusório que frustra todo mundo! Se a sua vida está num círculo vicioso talvez seja a única maneira que você encontrou para viver. Pare de se pautar pela vida dos outros nem tente copiar seus estilos de vida. Isso vai apenas te deixar com expectativas esmagadoras e que nunca serão concretizadas.

Se sua vida está em círculos, aprenda a fazer curvas...
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Por que as pessoas são tão cruéis com mulheres gordas?

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 7 comentários
Por que acha que as pessoas são tão cruéis com mulheres gordas?

Pregou-se, nas últimas décadas, a cultura da estética magra e atlética. E aqueles que estão fora dessa cultura soam como destoantes. E esses que pensam com os olhos da maioria são aqueles que apontam o dedo em direção ao que é diferente do seu grupo "majoritário".

Para esses acabrestados morais, alguém esteticamente diferente lhe parece alguém relaxado, que não se importa muito em impor sua presença pelo físico. No fundo, é um projetor de lamentações: gostariam de não ceder tanto à pressão, mas não conseguem.

E, com isso, ignoram o fato de que a maioria que não se enquadra no seu projeto físico ideal não o fazem não por vontade própria ou por falta de vontade: não o fazem por não poderem, mesmo.
E tem a questão do berço: quando criança, se chamamos algum amigo de "gordinho", logo vem um adulto nos recriminar por ter falando tal "ofensa". Pode ver que ninguém recrimina uma criança que chama a outra de "loirinho", por exemplo.

Aí crescemos sabendo que ser gordinho é ruim e que chamar alguém assim é errado. Portanto, quando queremos ofender alguém, logo nos lembramos disso e repetimos para ofender, de fato. São esses boçais que repetem coisas esdrúxulas do tipo: "toda gordinha tem obrigação de ser legal", como se isso fosse a única coisa que lhe restasse de bom. Mas são justamente esses os primeiros que choram quando a "boazuda" é esnobe e o ignora solenemente.

Talvez eu não seja a pessoa ideal pra criticar alguém por causa da sua opinião estética: eu tenho preconceito contra os sarados bombados que só pensam em malhar o corpo e esquecem-se de malhar o já atrofiado caráter.
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"Descobri que minha mãe foi prostituta. Não sei como lidar com a situação"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 14 comentários
Querido Ogro,

Descobri que no passado minha mãe foi prostituta. Ela me contou, mas não contou os pormenores e não tenho coragem de lhe perguntar. Mas esta a me consumir por dentro, não sei como lidar com a situação. Me ajude, por favor!

Minha cara ou meu caro,

Pode parecer um problema. Mas não é. Sua mãe ter sido prostituta, puta, garota de programa, acompanhante ou qualquer outra nomenclatura não muda muita coisa no que ela sente em relação a você. Aliás: se mudar, muda para melhor. Já conto o porquê.

Conheço muitas mulheres que vivem disso ou viveram. Converso com elas e vejo o quão devastador é o efeito em suas vidas. Com sequelas quase permanentes. Perde-se a confiança no ser humano, em geral: nos homens pela forma como muitos tratam as meninas; nas mulheres por causa da falsidade e deslealdade que rola no meio. Não tem nada de vida fácil ou dinheiro fácil. Há trabalho naquilo. Trabalho e renuncia à uma série de coisas. Você não imagina a quantidade de coisas que uma prostituta renuncia para fazer o que faz. É uma renúncia diária e dolorida. Renúncia, renúncia e renúncia.

É muito confuso explicar assim se quem estiver lendo nunca tiver conversado com uma mulher que viva disso. Há quem desmereça. Há quem condene. Há quem procure. Há quem ame. Há quem odeie. Mas não há quem sofra por elas. Nem há quem conserte os sonhos quebrados, a honra rasgada, o orgulho rachado, o medo prevalecido. Ser uma prostituta é "viver" sob a sombra da desconfiança e do dedo alheio apontado.

Voltando: e como isso muda pra melhor sua relação com ela? Simples: o amor de uma puta é um amor real. Ainda mais pelo filho. Aí vira amor de mãe. Aliás, é o filho quem a segura nessa vida por mais anos do que ela planejara. É a forma que ela tem de sustentá-lo, de garantir que não aconteça com ele o que aconteceu a ela. Tenho uma amiga que vive de um Estado ao outro por conta disso. Aprendi muita coisa com ela sobre esse submundo. É das mulheres mais fascinantes que conheço.

O que pode fazer com sua mãe? Amá-la da mesma forma. O que ela fez não foi feio ou errado. Não a condene por ter cobrado por algo que muitas dão de graça. E mesmo as que dão de graça não estão erradas. Mas as que cobram estão certas. Eu cobraria.

Se ela te contou é porque quer que você saiba através dela e não de outras pessoas. E não entrou em detalhes porque não há detalhes a serem contados. Tudo o que precisava saber está aí. E basta. Não seja igual aqueles que ela tanto amaldiçoou no passado. Não será apenas mais um homem ou apenas mais uma mulher na vida dela: você é e será A pessoa pra ela. A única que importa, aquela que faz os outros serem apenas os outros. Enfim: a forma como uma mãe se sente em relação a um filho. Nada muda na relação apenas por ela ter tido uma profissão socialmente condenada.

É complicado pra gente imaginar que nossa mãe fez e faça sexo, né? Seja com um, seja com cem, seja com mil. Que diferença isso vai fazer, porra? Entenda que ela conheceu o pior do lado humano e teve esse lado pior esfregado na cara diversas vezes. Compreenda que não há nada de indigno no que ela fez, mas é muito mais complicado do que as outras profissões. Há quem prostitua o sexo, há quem prostitua o caráter. Qual a diferença?

Não pense muito nisso. Sua mãe foge diariamente do passado dela: não o traga à tona. Deixe-o lá, no seu lugar de direito. Ela FOI uma prostituta, mas hoje É sua mãe. É o que importa.

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