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“Tenho 28 anos e até então nunca tinha me relacionado com mulheres. Gosto dela mas continuou sentindo desejos por homens”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 1 comentários
Querido Ogro,

Vivo um constante dilema em minha vida. Há quatro anos deixei a casa dos meus pais para viver com uma mulher. Tudo aconteceu MUITO rápido, com 10 meses de relacionamento eu já estava morando com ela. Tenho 28 anos e até então nunca tinha me relacionado com mulheres, apenas homens.

Meu último relacionamento com um homem durou dois anos, eu era muito apaixonada por ele, mas foi uma grade decepção amorosa. Passei uns três meses de “luto” após o término. Tinha dificuldades de me envolver com outros homens, pois tinha a expectativa de voltar com ele ainda. Passado o luto, continuei tendo dificuldades de me relacionar com homens, não sei explicar ao certo, pois não era por falta de “demanda”, me considero uma mulher interessante e sempre existem rapazes (até hoje) que me assediam bastante. Meu relacionamento com ela não é “aberto”, pois nossas famílias não aceitariam nunca e também porque não sei se é realmente isso que quero para a minha vida. Então vivemos meio “enclausuradas”, poucas pessoas sabem do nosso relacionamento.

Bom, mas meu principal dilema é: eu gosto dela, acho que amo, mas continuou sentindo desejos por homens. Já entrei em crises de depressão, pois sempre sonhei, desde pequena em casar, ter filhos e com ela é tudo muito complicado e sinceramente eu nem sei se encararia montar uma família, com filhos, em um relacionamento assim. Se eu pudesse escolher, escolheria hoje estar casada com um homem e com os filhos que sempre desejei ter.

Hoje não sei se o que sinto por ela é realmente amor ou simplesmente convivência, pois sexualmente não me sinto mais realizada. Depois que saímos para morar juntas, tudo mudou bastante. Passamos semanas, meses sem sexo. Existe muito companheirismo, cuidado, carinho, mas falta algo que eu não sei explicar. Somos mais amigas do que mesmo namoradas.

Outro dilema que convivo diariamente é o fato de “eu não me aceitar gay”. Quando saímos é sempre como “amigas”, pois sinto vergonha. Juro que não queria que fosse assim, mas não consigo me “assumir”, até porque como já citei acima, continuou sentindo desejos e atração por homens, sinto falta de fazer amor com homem. Como não gosto de me rotular, digo sempre para mim que gosto de pessoas, mas confesso que isso é um peso grande de carregar. Sinto falta da minha liberdade, mas estou “presa” nessa estrutura que construí com ela.

Quando saímos com meninas “do time”, muitas vezes me sinto mal, não querendo estar ali, fico vendo as meninas com seus namorados e muitas vezes desejo estar “do outro lado”.

Ela (que tem 30 anos) é uma mulher maravilhosa e não quero magoá-la. Já tentamos algumas vezes nos separar para “sentir” o que realmente queremos para nossas vidas. Ela percebeu que algo está errado comigo, mas todas as tentativas foram frustradas, pois como saímos para dividir um apê e não temos como e não queremos voltar para casa dos nossos pais, todas as vezes que nos “separamos”, continuamos vivendo no mesmo lugar e isso definitivamente não dá certo. Infelizmente não tenho estrutura financeira ainda para morar sozinha, dependo dela financeiramente para dividir as contas.

Querido Ogro, por favor, me ajude, pois não sei mais o que fazer. Sinto que minha vida está passando e eu estou apenas assistindo.


Minha cara gangorra,

É quando a vida começa a passar e não sentimos mais o gosto dela é que algo precisa ser feito. Há quem se contente em lamber a vida, mas há quem precise se engasgar com ela, devorar cada pedaço do cotidiano, se lambuzar da realidade e se afogar no lirismo do viver.

E é isso que está te faltando: essa gana, essa sede, essa fome. Agora está tudo muito sem gosto, apenas se alimenta para sobreviver de alguma forma. Uma praticidade que mata qualquer relacionamento.

E é assim que você deve ver sua relação: um relacionamento como outro qualquer. O fato de ser uma relação homossexual não muda nada. São duas pessoas convivendo sob o mesmo teto, cada uma com sua educação moral e ética, cada uma com medo dos preconceitos alheios e em uma fase da vida cheia de dúvidas e quase nenhuma resposta.

Considero os 28 anos o novo “18 anos” da vida adulta. É a maturidade pós-maioridade. Estranhamente a partir dessa idade as coisas parecem exigir mais explicações, as certezas somem e as dúvidas mudam. Todos os seus conceitos são atualizados, suas necessidades deixam de se adaptar e a busca por respostas consome boa parte do seu tempo. Comigo foi assim: justamente aos 28 deixei de apenas lamber a vida e vários pilares conceituais que eu tinha como certos de repente ruíram e novos foram construídos.

É o que agora te acomete. E nesse caso, precisa levar em consideração o agravante de estar vivendo com alguém diariamente. Isso fode muito a cabeça, ainda mais em uma relação totalmente nova e diferente para você. O primeiro ano de um casamento – se moram juntas, é um casamento, sim – é uma merda. Quem diz que o primeiro ano é todo lua-de-mel é porque está querendo ver outras pessoas se foderem como ele. O primeiro ano de um casamento é horrível e isso independe do tempo prévio que ambos namoraram: se namorou por 10 anos ou por 10 meses, sofrerá o mesmo choque.

Suas dúvidas sobre ter tesão em homens ainda é muito natural. Passou todos esses anos apenas saindo com eles e sua namorada acabou sendo uma exceção. Uma gostosa exceção que te fez se deixar levar. Era diferente, a novidade te excitava, o carinho era totalmente o inverso de tudo o que recebeu antes. Isso tudo conta para a excitação inicial e todo mundo pensa errado quando fica de pau duro ou buceta molhada. Essa porra de tesão meio que anula o cérebro.

E nisso voltamos ao fato de que, independente de ser uma relação nova para você, ainda assim é a mesma relação de qualquer pessoa com qualquer outra pessoa. Passará pelos mesmos estágios, em fases e níveis diferentes, mas enfrentará o mesmo que enfrentaria se fosse com um homem. A falta de tesão joga uma avalanche de dúvidas sobre vocês – sim, ela também pensa o mesmo que você em relação a isso. E nessas horas você resgata o que agora é diferente mas que sempre foi comum para você. De repente, sexo com homens virou a nova exceção e isso te empolga e te excita, da mesma forma como ela fazia antes.

Qual a diferença, por exemplo, de um casal hétero onde a mulher fantasia com outros homens? Ou mesmo com outras mulheres - e isso acontece muito... Nenhuma diferença. É o desejo por outra pessoa, por um toque diferente, por uma excitação causada pela novidade, pela necessidade de sempre ter algo novo. Isso é possível dentro da mesma relação desde que haja muita conversa e disposição. Por isso muitos casais chegam a cogitar um ménage. A simples ideia de ter um terceiro envolvido já empolga mais do que a real chegada desse elemento na relação. Ou mesmo uma única vez que dividam o mesmo homem pode ser uma nova chama que se acende e torna a queimar suas camas - desde que não vire uma muleta e apenas isso cause excitação.

Mas aí é que está a chave da coisa toda: você conversa com ela sobre isso? Conseguem debater o assunto sem uma acusar a outra? Sem tentarem desmerecer o argumento uma da outra? Uma conversa franca, com todas as dúvidas expostas e sem deixar nenhuma mágoa guardada para um eventual ataque tardio.

Não, vocês não conversam. Me disse que não sabe se ela encararia montar uma família. Isso é sinal de que preceitos básicos numa relação ainda não foram discutidos entre vocês. E é natural que isso não aconteça, é uma relação muito nova apesar de já viver sob o peso da convivência diária-quase -horária.

Ainda me diz que se pudesse escolher, estaria casada com um homem. E por que escolheria isso? Por que não teria condições de assumir uma relação dita diferente dos padrões impostos por nossos pais? Ou por que acha que ela realmente foi uma exceção?

Tenho uma amiga que passou por algo bem parecido: morou com uma mulher por anos, eram assumidas, se davam bem apesar do perfil da namorada ser bem ciumento e possessivo. Foi a primeira e única namorada dela. E ela sempre me dizia: “meu negócio é homem, ela é minha exceção. Se amanhã nos separarmos, volto a namorar homem. Não gosto de mulher, eu gosto é dela!”. E foi o que aconteceu: se separaram e hoje essa minha amiga está casada com um homem.

Talvez seja o seu caso. Talvez ela seja sua exceção. Talvez venha disso a sua “vergonha” de ser gay: você gosta dela, excepcionalmente dela. Você não se vê lésbica, não sente atração por outras mulheres. Teu lance é com ela e só com ela e por isso suas fantasias envolvem outros homens e não outras mulheres. Pois se não for com ela, você voltará a procurá-los. Ou você sente desejo por outras mulheres?

Isso, minha cara, pode ser um bom sinal de amor, sim. Talvez essa sua exceção seja justamente por sentir nela algo que difira da maioria. Mas para isso ser real e pleno, é preciso conversar. Não dá pra esperar passar o tempo e deixar o outro se tocar sozinho dos problemas que acometem a relação. Eu fiz isso e paguei anos de juros pesados. Não queira isso. Não vale a pena esperar apenas por medo de magoar o outro.

Não há pior mágoa em uma relação do que o silêncio auto-imposto. É preferível o choro causado pela exposição de sentimentos ao sorriso causado pela omissão de desejos.

Acredito que ainda haja tempo de salvar esse barco. Nenhuma causou grandes mágoas na outra ainda, nenhuma precisou procurar outros amores para enxergar a realidade de agora. Leve isso em consideração.

Pense na sua relação como uma escultura. Já esculpiram o desenho, falta agora o acabamento. O verniz é a atração não apenas física, mas humana e de caráter, onde sempre consegue admirar o outro por suas qualidades e apesar de seus defeitos; o diálogo é como uma lixa que apara os excessos e renova as camadas do verniz. Se constantemente conseguirem envernizar e lixar essa escultura, terão uma peça digna de ser exposta na principal estante de suas vidas. Caso contrário, será apenas um entulho empoeirado e amontoado no quarto das reminiscências.

Depois de quatro anos, estão precisando de uma demão nova. Resta saber se ambas estão dispostas a se sujarem um pouco. Afinal, não dá pra lixar nenhuma relação sem se sujar um pouco com o pó da realidade. Mas nada que um banho depois não resolva. Juntas, quem sabe?

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"Não consigo relacionar um amor com o sexo. Sempre acho que quando eu transar com alguém logo já vou estragar tudo!"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , , 4 comentários
Querido Ogro...

Me fazer entender tem sido muito difícil, tem dias que eu acordo e nem sei quem eu sou exatamente.
Como eu já tinha contado em um outro email, sou lésbica e posso dizer que tenho certeza disso. No outro email, disse que tinha umas dúvidas, por só me interessar por mulheres bem mais velhas. Mas hj, não é exatamente assim que acontece...

Há pouco tempo contei tudo pra minha mãe e a partir daí comecei a me sentir mais livre, tirei um peso das minhas costas e me sentia tranquila pra viver a minha sexualidade, sem me preocupar se ela poderia ficar sabendo disso pela boca de terceiros... mas ainda tenho as minhas questões.

Isso pra mim parece completamente incoerente, mas mesmo assim vou tentar explicar: gosto de mulheres, desejo mulheres, mas quando eu começo um relacionamento com alguém, uma pessoa que eu gosto, que eu tenho um bom papo,que teoricamente não seria só o sexo, é como se eu não pudesse me dar bem sexualmente com essa pessoa também. Não consigo relacionar um amor com o sexo, entende?

Sempre acho que quando eu transar com alguém logo já vou estragar tudo. Eu não sei o que isso pode querer dizer, mas me faz mal. Às vezes penso que isso é só pq não quero nada sério com ninguém... e de certa forma não quero mesmo, quero aproveitar a minha vida, transar se tiver afim de transar, sem compromisso, sem me preocupar com o dia seguinte e com relacionamentos. Mas isso continua sendo muito estranho, já que eu tenho uma pessoa que eu gosto, mas simplesmente não consigo ter relação sexual com ela e às vezes eu penso que é pq não gosto de gente grudada em mim... e ela é muito grudenta!

Mas ao mesmo tempo, não é SÓ ela, sabe? São meninas em geral. Me tranquiliza quando penso que pode ser pq não sou apaixonada de verdade (e isso não sou mesmo). Eu simplesmente gosto. Nas duas vezes que me apaixonei queria tudo junto mesmo, elas me preenchiam em absolutamente tudo. Mas ela não é paixão sabe? É um papo bom, umas brincadeirinhas de vez em quando, mas nada muito emocionante...

Tem também o fato de que ela já disse que não é passiva de jeito nenhum, e isso me broxou! Isso me deixou meio desanimada já que não sou uma superfeminina e nem me vejo como passiva de alguém o tempo todo... me vejo como a ativa da relação, sabe? Aceito, sim, ser ''penetrada'' por uma mulher, desde que seja assim com as duas.

Tenho me culpado um pouco por essa ''indiferença'' que eu acabo tendo pelas pessoas, não gosto disso. Você acha que pode ser por falta de amor? Falta de desejar mesmo alguém? Ou isso pode ser com todas as pessoas? Isso me assusta muito, pq tenho medo de ter me precipitado em contar tudo pra minha mãe, não ter certeza se é isso mesmo, enfim... Eu já imaginei muitas possibilidades, mas nada que seja firme mesmo, a ponto de me deixar tranquila.

A única coisa que posso dizer que tenho certeza é que por homens eu não tenho interesse sexual, nem nenhum tipo de interesse. Mas ao mesmo tempo não consigo ter nada "sério" com mulheres. Help me!


Minha cara sandalinha reincidente,

Mais cedo ou mais tarde você iria voltar aqui, não? São dúvidas e mais dúvidas correndo pela cabeça... ah, o final da adolescência! Esses 17 anos que nunca acabam... a vontade de chegar logo os 18 e ser, finalmente, socialmente adulta! São, de fato, os melhores piores dias de nossas vidas essa fase!

Bom, essa separação que você faz entre sexo e amor, tesão e afeto é comum... eu mesmo tive essa fase! Lembro-me que minha referência para saber se estava apaixonado por alguém era muito tosca: se não conseguisse me masturbar pensando na pessoa, era porque estava apaixonado. Se fosse pro banheiro e batesse uma na boa, não era paixão. Estranho isso, não?

Fazemos isso pois na aurora da adolescência somos ensinados de que o amor é uma coisa pura e o sexo uma coisa suja... logo, não queremos misturar os dois! Queremos nos sujar de tanto trepar, mas queremos manter o amor asseado!

Já te disse da outra vez: isso tudo é natural na cabeça de uma jovem mulher... seja gay ou não! Claro que você se sente mais diferente por conta dessa sua orientação, mas se conversar com suas amigas sobre como elas se sentem com os namorados ou paqueras, você irá se identificar com as dúvidas.

Não se precipitou ao contar pra sua mãe, não... Não se sentiu bem com isso? Não está aliviada por ela saber disso através de você? Então!

Agora, esse lance de ser ativa e passiva é uma regra? É algo condicional? "Só serei isso" ou "só serei aquilo"? Relaxa, lerda! Tente não pensar muito nisso... vá, erre, tome no cu e volte chorando. Só assim você vai aprender. Não há outra forma. Chupe e se deixe chupar... enfie e seja enfiada! Sexualmente, sempre adotamos uma postura mais ativa ou mais passiva. E isso acontece, por vezes, dentro da mesma noite! Libere-se desse rótulo chato de ser a sandalinha ou a sapatão!

Tente trepar com quem você ama e tente amar quem você trepa!
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"Como dizer pro meu marido que quero ficar com uma mulher e que a principio quero que ele só olhe?"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 1 comentários
Querido ogro...

Como dizer pro meu marido que quero ficar com uma mulher e que a principio quero que ele só olhe?

Minha cara curiosa,

Quer coragem pra dizer? Baixe esse vídeo,
Toque de Veludo, que conta um romance lésbico passado no século XIX. Assista junto com ele e vá deixando a entender que acha interessante e que quer experimentar curtir uma mulher e quer que ele fique sentado assistindo... que tem uma tara por ser vista por ele enquanto você degusta uma mulher! Apenas deixe claro, também, que a escolha da fulana será SUA. Todo homem tem tesão em ver duas mulheres juntas... TODOS, sem exceção! Mesmo que seja pra ficar sentado assistindo.
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"Ele me lambia e dizia gostar da pele gelada e do gosto do medo... eu tinha 12 anos, apenas!"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , , , 61 comentários
Querido Ogro,

Estupro resultou na minha escolha sexual? Difícil conseguir começar a falar disso, nunca NUNCA falei disso com ninguém. Você é a primeira pessoa que irá saber do assunto... faço analise faz uns 4 anos e nunca contei sobre isso nem ao analista! O que vc tem, hein? rs...

Bom, cresci em uma cidade pequena onde todos se conhecem. Íamos sem pudor e frescura uns nas casas dos outros qndo era menor...enfim típica cidade do interior. Eu tinha 12 anos e na minha época ter 12 anos era ser criança, mesmo... Eu era muito piralha, corpo pequeno, magrela, demorei muito pra desenvolver, menstruar, crescer e ganhar formas. Não que o fato de uma mulher ter corpo feito possa ser justificativa pra um estupro... mas alguém desejar e querer uma criança é algo que está além da minha capacidade de entender.

Enfim, tudo aconteceu aos 12 anos: fui até a casa de uma amiga chamá-la e o pai dela me mandou entrar. Entrei e fiquei na sala, pois ele tinha tido que a minha amiga estava no banho. Isso era algo normal de convivência em uma cidadezinha pequena. Como tava demorando, me levantei e disse que ia bater na porta e apressa-la. Quando levantei, ele segurou meu braço e disse que ela não estava lá. Fiquei brava por ter feito esperar e fui em direção a porta pra sair. Foi quando ele me disse: “Fica, vc vai gostar”!

Me segurou, tampou minha boca e começou passar a mão no meu corpo... me jogou no sofá e quanto mais eu tentava sair dali, mais tentava gritar e me esquivar, chorando, mais eu podia ver a satisfação nos olhos dele! Ele me lambia e dizia gostar da pele gelada e do gosto do medo...

Segurou meu pescoço e pediu que ficasse quieta que ele acabaria logo. Me virou de costas, tirou minha calcinha e disse que ia doer mais, mas que eu devia agradecer por ele não tirar minha virgindade. Era tão inútil gritar e tentar sair dele que eu apenas esperei o momento pra sair dali ou pra morrer, sei lá... qualquer um era mais preferível do que estar ali.

Quando ele me deixou ir, eu sai correndo! Corri tanto, sem direção, sem forças mas com força... era estranho! Acabei indo pra um mirante que tem na cidade, tipo uma lugar secreto de criança, sabe? Eu deitei lá e chorei... Tô sendo a ingênua, não? Mas eu era mto inocente mesmo, não sabia muito sobre sexo nem nada. Era tão confuso pra mim e meu corpo doía, mas não suficiente pra sanar a dor que sentia dentro.

Foi então que peguei uma pedra e fiz um corte no pulso... Não queria me matar, só queria sentir outro tipo de dor e esquecer o tinha acontecido. Como naquele momento eu queria ficar sozinha, fiquei muito tempo ali e não voltei pra casa. Escureceu e resolvi ir pra casa, enfim... Ir pro lar onde estaria protegida, onde tinha meu pai que era meu herói. Só que quando cheguei, meu pai tava desesperado com meu sumiço, minha mãe chorando, a polícia em casa e tal... Hoje eu entendo, claro!

Quando meu pai me viu chegando, vi no rosto dele um misto de alivio com raiva. Ele gritou, me puxou pelo braço e perguntou onde eu tava, que tinha acontecido... ele me puxou pelo braço e isso me fez travar e lembrar do cara. Assustada e traumatizada, como ia dizer no meio de todas aquelas pessoas que estavam em casa o que tinha acontecido horas antes? Sentia vergonha, nojo, medo. Acabei dizendo que tinha ido no mirante, caído e me machucado.

Entrei no banheiro pra tomar banho e fiquei trancada lá por muito tempo. Meu pai ficou muito bravo e eu passei a odeia-lo a partir de então. E pior: com o corte no pulso, acharam que eu estava com algum problema psicológico, que tinha tentado me matar ou coisa assim... O que se tornou preocupante pra eles, pois me cortar se tornou um hábito pra mim... Anos mais tarde, me vi um pouco naquele filme "Aos 13" ou na musica do Legião: “quando ela se corta ela se esquece”. Era isso que vivia... nunca consegui falar sobre isso, nem com amigas, nem com psicólogo, nem com meus pais!

Eu tinha raiva porque esse cara treinava (e ainda treina) um time de futebol de meninas na cidade, foi eleito vereador no mesmo partido do meu pai, que também é político. Era tudo tão hipócrita e óbvio que me tornei uma adolescente “rebelde” e fui buscar na arte essa necessidade que tinha de me expressar mas não conseguia. Hoje eu entendo meu pai: a preocupação, a reação dele quando me viu chegando depois de horas “sumida” e só hoje em dia consigo ter uma relação sem grandes discussões com ele.

Eu acabei me afastando da filha desse cara. E acho que ele tenha feito algo com ela, também. Hoje ela é uma garota que tem compulsão sexual, transa com vários homens... me pergunto se isso aconteceu com ela e essa foi a forma que ela encontrou de encarar ou exorcizar o abuso.

Isso ficou guardado comigo, nunca me permiti contar pra ninguém, me fechei pra sexualidade na adolescência, pensar em um menino ou cogitar gostar de um homem era pra como se eu ferisse de novo aquela criança de 12 anos... Acabei descobrindo minha sexualidade com uma amiga. Achei que talvez fosse fase, que com o tempo passaria. Gostei de um cara, fiquei com ele, mas nunca consegui transar... Transar com um cara, alguém me penetrando ou mesmo desejar isso era como se eu tivesse aceitando, concordando, sendo conivente com o que o cara fez comigo. Infelizmente meu pensamento se tornou esse.

Quando conheci uma menina, aos 19 anos, ela era lésbica. Ficamos, namoramos, moramos juntas... durou 4 anos e eu me sentia confortável com a situação. Provavelmente se não namorássemos, ela seria e é uma grande amiga, mas eu tinha e tenho tesão em uma relação com mulher, era bom ficar com ela, gostar dela... Porque eu não precisaria me preocupar com o fato de ser “tentada” ficar com um homem, entende?

Acontece que agora, solteira e sozinha e talvez muito mais madura, eu não sei se me permito esse tesão por homens... Porque ele existe, mas a parte de mim que não superou isso me reprime demais, sabe? Admitir que tenho vontade de transar com um homem, que tenho vontade de ser pegada pelo cabelo, num sexo selvagem, me coloca em questão: no fundo, será que eu não tenha gostado daquilo que aconteceu?

Parece doentio pensar assim, mas me passa isso... afastar possibilidade de sexo com homens é como proteger aquela criança que eu queria que meu pai protegesse, sabe? É tão difícil desvincular esse pensamento... sofro demais com isso: eu quero e sinto vontade de transar com homens! Eu não sei, mas acho que busquei nessa coisa de ser lesbica uma proteção que se confunde na minha vida.

E por mais coisas racionas que me diga, eu aceito e entendo.. mas algo dentro de mim precisa se libertar disso de um forma concreta. Talvez contando agora pro blog, pra alguém, talvez indo lá e dando um soco na cara dele, talvez transado com um homem, enfim... Não sei o que pode me libertar. Mas confesso que pela primeira vez falando disso me sinto um tanto mais leve!

Não imagina o quanto já me sinto bem apenar por falar com alguém... isso teria sido importante antes, como é agora. Mas podia ter sido menos dolorido esses anos pelo simples ato de falar com alguém! Que bom que você tem esse blog... assim entendo como você realmente ajuda outras pessoas. Estou euforicamente aliviada. É como se houvesse o "antes" e agora vai existir o "depois".

Minha querida flor;

Muito bom que você tenha tido a coragem de vencer esse obstáculo interno e contar sua história para alguém. Viu como fez bem dividir isso? Não precisava ter passado por isso sozinha esses anos todos, né? Depois chamo de lesada não é à toa...

Enfim, nem preciso dizer que não tem culpa em nada do que aconteceu... ou preciso? Você não procurou por isso, tampouco provocou tal selvageria. Mesmo sua postura de esconder isso de tudo e todos por tantos anos não é condenável. Trata-se de uma violência que te deixou severas marcas e que você precisa expurgar de alguma forma... Engole o choro e vamos começar a botar o trem de volta nos eixos! Coragem você já provou que tem. Afinal: aguentou sozinha isso por tantos anos... notável e admirável sua coragem e fibra. Sério...

Vejo que gosta de reforçar que era apenas uma criança, tanto fisicamente quanto mentalmente, e ressaltar o motivo que a levou a estar dentro daquela casa naquele momento. Ninguém irá te julgar por isso, nem irá dizer que você procurou por algo... portanto, relaxe. Não está sendo ingênua: você ERA ingênua. Como cobrar postura sensata de uma criança que tinha acabado de sofrer uma crueldade como essa?

Você se cortou, se machucou para se safar dessa represa que tanto lhe causa dor. Foram várias vezes. A dor física é uma aliada... faz provar que estamos vivos, apesar de sentirmos que estamos mortos por dentro em algumas ocasiões. Às vezes, esses pequenos cortes te impediam de causar um mal maior a você mesma.

Hoje, aos 25 anos, resolveu abrir a boca e tirar um pouco isso do peito... e sentiu que pode fazer bem! É um ótimo passo para superar tal trauma... Você não é uma mulher traumatizada, apenas passou por um trauma. Nota a diferença? Isso que te aconteceu não define quem você é...

E saber que não é a única ajuda, também. Publiquei aqui
um relato bem parecido com o seu e recomendo que leia para que veja que não é só você que sofreu com isso... Dor dividida é dor compreendida!

O cara foi um crápula e vamos pensar numa forma de bota-lo em seu lugar. Como disse, é conhecido na cidade e trabalha com crianças desde sempre. Quantas mais não passaram pelo que você passou? Até mesmo a filha dele apresenta atitudes de quem tenha sofrido o mesmo. Vamos pensar em algo para desmascarar esse monstro e faze-lo pagar por tudo o que cometeu... e ainda assim, será pouco!

Sobre seu pai, é natural que tenha se "decepcionado" com a atitude dele, uma vez que esperava que ele te "protegesse". Mas ainda bem que percebeu que não havia muito a ser feito, já que ele desconhecia o abuso e você não conseguia se expor. Espero mesmo que tenha claro isso no coração, para não guardar mágoas das pessoas erradas.

Vamos nos ater ao ponto que mais te causa conflito... sua homossexualidade! Tanto no caso linkado acima como em outros que tive acesso desde que montei esse blog (um ainda irei publicar e os outros foram contatos em off), noto essa orientação a procurar se relacionar apenas com mulheres... seja durante um pequeno período, seja por muito tempo! É uma forma de manter sua sexualidade viva sem se machucar mais ainda com a imagem de um homem com você.

Foi esse estupro que te fez virar lésbica? Não! Ajudou? Sim, ajudou... mas você teria voltado a se relacionar só com homens caso não tivesse essa orientação sexual. Ou seja: você é bissexual e ponto. E daí? O problema é conseguir perder o medo de se relacionar com homens novamente, caso esse seja mesmo seu desejo. E, pelo que comentou, vejo que tem mais curiosidade do que a vontade propriamente dita. Busca essa experiência na esperança de que isso te confirme ou não sua sexualidade ainda conflitante...

Acho que você tem um bom gosto do caralho... afinal: buceta é muito bom e isso ninguém pode negar! Se não fosse bom, já teria deixado isso de lado, não acha?

Enfim, voltando! Você disse:

Admitir que tenho vontade de transar com um homem, que tenho vontade de ser pegada pelo cabelo, num sexo selvagem, me coloca em questão: no fundo, será que eu não tenha gostado daquilo que aconteceu?

Não! Isso não é admitir que tenha gostado do que aconteceu. Tá maluca? Essa vontade de um sexo mais selvagem é normal, todos nós temos... Como me explica tanta gente tendo essa tara mesmo sem sofrer algum abuso? Aliás: como explicar tanta mulher gostando de homem e mulher ao mesmo tempo, mesmo sem sofrer uma violência igual a sua? Compreende que o único problema é apenas você conseguir superar o que te aconteceu? Todo o resto irá soar natural depois que superar esse fatídico evento: suas taras, suas vontades, suas atitudes... tudo irá lhe soar normal.

É por isso que precisa escolher um cara bacana pra isso... e recomendo que envolva outra mulher junto, para você ir se acostumando. Além de ser divertido pra caralho, você irá se acostumando ao sexo oposto e, aí sim, formar sua opinião sexual. Ou confirma que ainda sente desejo por homens ou confirma que sua parada é mulher, mesmo...

Será difícil? Sim... Vai pensar em desistir da ideia? Sim, também. Mas vá com calma... terá todo o tempo do mundo para se preparar a isso. Comentou que faz terapia por conta de outro problema que teve... acho que é uma boa hora para se abrir para seu terapeuta, não acha? Afinal: já botou pra fora e te fez bem! Como ele é um profissional que te conhece há anos, irá saber como te ajudar de uma forma mas eficaz. Tente isso e me conte como foi.

O primeiro passo você já tomou: resolveu falar. Melhor levar 13 anos para se abrir do que perder uma vida toda enclausurada.

Isso me faz lembrar da mitologia por detrás da flor-de-lótus. No Oriente Médio e na Ásia, é considerada uma flor sagrada... sabe por qual motivo? Ela germina em águas lodosas e lamacentas... para depois de um tempo emergir mostrando sua força e beleza. São belas pétalas de uma flor que representa nossos problemas e a forma em que devemos sair deles.

Chega de viver na sombra... chega de fugir de você mesma! Você já botou sua primeira pétala para fora dessa lama. Está na hora de desabrochar e mostrar ao mundo o quão bela você é. Não deixe que um filho da puta impeça que você brilhe...

Seja sua própria flor-de-lótus!
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"Você acha que possam ter gays que só se interessem por pessoas mais velhas? Ou por pessoas muito mais novas?"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 2 comentários
Querido Ogro,

Tenho 17 anos e desde muito novinha me sentia diferente das outras meninas da minha idade. Mas apesar de às vezes pensar que poderia ser lésbica, essa palavra sempre me assombrou muito. Eu não sabia como lidar, com quem falar, essas dúvidas normais...

Enfim, depois que aceitei esse fato, passei a ver que muitas pessoas que eu me encantei, que eu chamava de "amigas" eram na verdade mulheres por quem eu fui apaixonada. E a uns 2 anos atrás, eu conheci uma mulher que agia de uma forma estranha comigo, se aproximou muito mesmo sem me conhecer, dizia que me amava e não entendia o porque e tinha atitudes de uma pessoa que estava interessada em mim, enfim, ela é muito mais velha, mexeu comigo, mas com o tempo a gente se afastou e deixamos por isso mesmo, vou morrer sem saber as reais intenções dela.

Tenho medo de ir atrás pq sempre que ela me vê me ignora, finge que não me conhece. O fato é que apesar de me considerar gay, só consigo me interessar pelas mulheres mais velhas. As meninas da minha idade, muito raramente eu acho alguém que eu realmente goste, que realmente me atraia, mas essas que eu gosto, nunca rolou nada, já fiquei com algumas meninas da minha idade,me sinto incompleta da mesma forma de quando eu me relacionava com homens.

O meu medo maior não é nem ter que admitir pras pessoas a minha homossexualidade, o problema maior é saber se é realmente isso. Você acha que possam ter gays que só se interessem MESMO por pessoas mais velhas? Ou por pessoas muito mais novas?

Minha cara sandalinha,

Troque o gênero e ainda restarão as mesmas dúvidas. Ou seja: não são questões de uma lésbica: são questões de uma adolescente! Ou melhor: indagações de um ser humano que se relaciona com outro ser humano.

Vejo que sua dúvida está não na sua homossexualidade e sim na sua predileção por pessoas mais velhas. Há quem se identifique melhor com mentes mais experientes e, consequentemente, mais abertas. Geralmente sofremos ao nos relacionarmos com pessoas da mesma idade porque eles soam como "infantis"... no caso de uma garota de 17 anos, isso é mais acentuado. É normal e natural... relaxa!

Assim como é natural que haja quem se interesse pelas pessoas mais novas. Isso acaba sendo uma necessidade de auto-afirmação, pois com alguém mais novo, é mais fácil soar sábio e experiente. Não há o confronto de ideias mas apenas de ideais! E isso, para alguém mais velho, é fácil de contornar... ao passo de que com alguém da mesma idade, o embate é melhor travado e a chance de perda é maior!

Você disse que desde muito novinha se sentia diferente das demais meninas. Qual adolescente não pensa assim? Essa é uma época que vivemos à margem do mundo, somos incompreendidos e revoltados. Ou seja: são os melhores piores anos de nossas vidas! Saudades da minha época de "sou rebelde porque o mundo quis assim", viu? Hoje ainda sou assim, mas não posso culpar os hormônios da adolescência, mais!

Quanto a essa mulher, foi apenas um flerte que não deu certo... Vai ver ela queria só te comer e não deu certo. Vai encontrar várias outras assim pela frente. Caberá a você saber se pelo menos a foda valerá a pena...

No mais, deixe que a opinião alheia vá pra casa do caralho, seja feliz como você é e pronto! Essa é sua orientação e não sua opção... Como eu disse: suas dúvidas são de um ser humano comum como todos nós somos! O fato de ser gay não muda nada.
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