Olá, Felipe.
Acho que esse “olá” me custou o fundo do poço. O extremo para pedir ajuda/opinião/bronca a um quase estranho da internet, que as únicas coisas que sei é que, aparentemente, tem certa paciência para ajudar algumas mulheres que, por algum motivo e por algum sentimento destrutivo, já se perderam. Nem de longe a minha história é a pior das histórias. Mas pra mim é uma história sofrida. Dolorida, arrebatadora. Tirou-me o sentido e a vontade de viver.
Claro que já houve um diagnóstico patológico disso tudo, a grandiosa depressão, a bela ansiedade generalizada, a espetacular síndrome do pânico. Mas eu acredito que sofro de uma única coisa, muito pior do que todas essas juntas: um amor destrutivo. O “amar a pessoa errada”. Não há nada de surpreendente na minha história, a não ser a minha burrice. Uma série de socos em ponta de facas, sem fim, com seqüelas eternas.
Tudo começou em uma festa, de família e ele estava lá. Muito jovem, razoavelmente bonito, e um interesse repentino por mim, que a princípio ignorei veementemente. Mas o fim de um relacionamento anterior (um relacionamento longo, mas raso demais) me fez arriscar, já que “ah, acabei de sair de um, vai ser difícil me apegar agora.”
Eis que tudo começou. As conversas, a companhia, as pequenas loucuras de aparecer em horários malucos pra me ver, as declarações de amor repentinas, e tudo me fez apegar a ilusão de achar que pela primeira vez seria amada por alguém. Em exato um mês já estava totalmente entregue àquelas palavras doces e aquele ser inexperiente, muito jovem, alegre, cheio de vida.
Foi quando, descobri a primeira traição. Uma menina muito mais jovem, bonita, também cheia de vida. Acho que pela primeira vez na vida percebi realmente a idade que tinha. Pela primeira vez qualquer comparação com pessoas mais novas fizeram qualquer sentido na minha vida. Acho que foi quando me dei conta da idade que tinha, como se tivesse pela primeira vez experimentado a velhice.
Terminei, mas o choro, as lágrimas, o sofrimento, a lamentação me fizeram voltar e “perdoar” o deslize, que certamente nunca mais teria qualquer problema na nossa vida. Foi o começo do inferno e eu nem sabia que estava começando. A garota o perseguiu, ele retribui outras vezes aos encantos dela, e eu comecei a ver tudo como um desafio para tê-lo comigo e não perder para uma jovem mocinha. Acho que esse desafio, completamente sem razão de ser, eu ganhei, muito tempo depois ela sumiu das nossas vidas.
Mas não passou tanto tempo pra tudo se repetir, enquanto me preocupava com as jovens garotas, descobri, pelas falhas dele em esconder, que ele estava saindo com uma tia de um amigo, que tinha aproximadamente 55 anos. Acredito que literalmente meu mundo caiu ali, foi muito difícil conviver sabendo que ele estava completamente apaixonado por ela. Cada mensagem que li, que foi enviada pra ela, me deixavam com uma mescla de inveja, ciúmes, tristeza, tudo o que uma mulher pode sentir em uma situação dessa. A minha reação foi a mais impossível de se imaginar. Foi o início da derrota do amor-próprio.
Ele começou a me ignorar, tentar me afastar da vida dele, e eu, inconformada, passei a me rastejar atrás dele. Não admitia de jeito nenhum, perde-lo para ninguém. Acredito que nunca, em toda a minha vida eu fui tão humilhada e conivente com a humilhação. É a coisa mais esquisita falar, mas era importante para mim ser humilhada, por que me humilhando, era uma maneira dele estar na minha vida ainda, perto dele.
Eu ligava pra ele, mesmo que pra ouvir que eu não servia pra ele, nem pra ninguém, mas eu ouvia a voz dele, e me dava 5 minutos de alegria. Porque a essa altura, a voz dele era essencial para minha sobrevivência. Por imposição das pessoas que conhecia, e por recomendação de alguns médicos que tive que passar, acabei procurando um psiquiatra. Como se não fosse suficiente, fui parar em um pronto-socorro psiquiátrico. Completamente paralisada, quase uma morta viva, ao lado de outras pessoas com camisa de força.
Já estava, nesse momento, com 38 quilos, dependendo de 4 ou 5 remédios diferentes por dia, sem emprego, literalmente acamada e acabada. Completamente dopada. O tempo passou, e talvez por muito dó dele e muita insistência minha, nós reatamos. Voltamos com um relacionamento que nunca existiu de verdade. As mentiras jamais acabaram. E, obviamente não demorou muito tempo e descobri a terceira traição. Não tão diferente das outras, extremamente dolorida. Depois de um tempo decidi parar de contar quantas foram, e analisar as mulheres procuradas por ele, não havia mais um perfil, era a simplesmente a que aparecesse na frente dele.
É estranho dizer, mas eu achei que essas mulheres que vivem nesses casamentos, em que as traições são rotineiras na vida, que em algum momento elas se acostumavam com a situação, e viviam normalmente com isso, aceitavam e passavam a ter aquilo como parte de suas vidas. Mas não foi, nunca me acostumei, cada traição, cada mentira, cada descaso, cada destrato, cada violência psicológica, cada violência moral, sempre arrancou um pedaço de mim, sempre contribuiu pra construir uma personalidade amarga, uma mulher sem destino, sem alegria, sem moral, sem personalidade. Um cubo de gelo. De tristeza. De falta de qualquer perspectiva na vida.
Essa literalmente sou eu hoje.
As traições continuaram ao longo dos quase 5 anos juntos, nunca recebi um carinho gratuitamente sem uma anterior exigência, sem uma chantagem, comparação com conhecidos ou jogando qualquer coisa na cara. E não sei te explicar porque, mas a pior coisa da vida é ter que aprender a viver sem ele. Tudo ficou mais difícil, respirar está mais difícil, talvez pelas dores que sinto o tempo inteiro no peito, não é somente uma dor qualquer, ela é física, é uma pontada que vem do fundo, que me acorda nos raros momentos de sono. Comer ficou impossível, a comida ficou sem graça, e não passa no nó que nunca se desfaz na garganta.
Há pouco tempo, depois de tanto ajudá-lo nos sonhos que tinha, consegui que ele começasse a tão sonhada faculdade. Não demorou quase nada e eu já estava sozinha em casa, chorando, solitária, enquanto ele se diverte com as novas “amigas” e amigos. Como em todas às vezes, a única coisa que levo é a solidão e a amargura e a tentativa eterna de querer saber onde eu errei, o que eu fiz de errado, o que eu não tinha que ele tanto precisava e não encontrou em mim, o porque essas mulheres são tão especiais que todas são atraentes a tal ponto pra ele, que é fácil simplesmente me ignorar e não se preocupar com o meu sofrimento.
Desde então, da decisão de que os novos amigos e as amigas eram mais interessantes companhias do que eu, ele nunca mais me ligou. Não, ele não se deu ao trabalho de me avisar que não queria mais ficar comigo, apenas sumiu. Também não me atende mais, ele não perderia tempo com uma pessoa tão insignificante na sua vida.
Eu queria um remédio que me fizesse sentir apenas raiva dele, mais nada, sentir tanto ódio a ponto de desejar que ele sumisse da minha vida e do mundo... mas não: cada segundo que passa eu só quero mais ele. Mais e mais e mais. A falta que eu sinto da pele, do toque, do som da voz, é algo indescritível. É tão doloroso, que eu gostaria de arrancar meu coração fora do peito. Não, não precisaria mais dele.
Mas preciso me conformar. Preciso saber quanto tempo isso demora pra sumir no tempo, ficar nos arquivos da memória e nada mais. Saber quando eu vou acordar e não pensar mais nele, não sonhar com ele, não entrar no ônibus pensando nele, não desviar totalmente o meu caminho somente pra passar perto da casa dele, com o objetivo de forjar um encontro qualquer, não deixar de comer porque só de pensar nele, o sofrimento me consome.
Cada dia que passa, o tesão de viver se apaga um pouco mais. Envelheci nitidamente nesses últimos anos, parece que fiquei 10 anos mais velha, tenho todas as marcas de sofrimento no meu rosto, ele esta registrado fisicamente em mim.
De verdade: eu nem sei ao certo porque realmente escrevi esse e-mail, mas acho que precisava falar pra alguém, acho q só queria que alguém no mundo prestasse atenção no meu sofrimento, ou que me falasse quando isso vai passar, quando eu vou conseguir ser de novo uma mulher viva, uma pessoa capaz de sorrir, que todos os pensamentos que nutro agora vão passar, que essa vontade de sumir, sumir do planeta, passe.
É tão difícil que não sei mais o que pensar.
Estou escrevendo pra você pois leio seu blog e acho que você tem uma sensibilidade incrível pra esse tipo de questionamento (e uma agressividade necessária pras respostas). Não precisa responder se não quiser, eu já tentei um contato anterior com você mas não tive coragem de falar nada. Então resolvi mandar por aqui, de um e-mail diferente que não constasse meu nome real, pelo único motivo de sentir vergonha disso tudo e de estar escrevendo pra você.
Obrigada por ler, se fizer isso! Se não ler, obrigada da mesma forma por escrever no blog.
Minha cara formiguinha;
Vem cá: você releu a mensagem que me mandou? Chegou a olhar o quão ridículo é o papel que está desempenhando? Se não, faça e refaça quantas vezes forem necessárias. Porra, vai tomar no cu, né?!
Todo mundo passa por isso, todo mundo tem esses casos mal resolvidos, que deixam seqüelas permanentes, que machucam pra caralho. Mas é preciso encontrar um limite. Se não o encontra, que o estabeleça baseado no grau de entrega e recebimento. Se a balança pesa mais para um lado, está na hora de começar a agir. E sua balança quebrou há tempos, viu?
Sim, isso tudo passa. Isso tudo um dia vai soar menor e nem vai se lembrar da intensidade da dor, apenas saberá que doeu. Mas é preciso que você queira isso, de fato. Que pare de se subestimar e se rebaixar em troca de migalhas de atenção. Você tem tanta pena de si mesma que acha que tudo o que merece dos outros é a mesma pena.
Que dó de você, hein? Que dó, que dó... que dó!
Não, não tenho um pingo de dó ou pena... Tenho é raiva, no mínimo.
E sabe quando isso vai passar? Está preparada para o grande segredo que vai mudar sua vida para melhor? É um caminho sem volta: uma vez que começar, não poderá voltar... mas o resultado é 100% garantido. Bom, então lá vai o segredo: só voltará a ser como era antes quando deixar de procurá-lo, dentro e fora de você. Óóóóó...
Viu como o segredo está justamente no mais óbvio? Mas é tão óbvio que você reluta em acreditar que seja essa a solução. Mas é. Está mais do que provado que não será feliz com ele. E nem o fará feliz. Se o ama tanto assim, deixe-o livre, deixe que ame quantas mulheres ele quiser... todas ao mesmo tempo, se for o caso. É problema dele! Seu conceito de amor está um pouco desregulado. Se não consegue nem SE amar, como poderá amar outro?
Você tem medo da dor, você acha que ela vai te derrubar de vez e sempre busca alguma coisa pra se segurar. E essa coisa é sempre nele! Em nenhum momento li você falando que está buscando ajuda em outras pessoas, em outras coisas, em outros amores... Apenas ele, ele, ele, ele. PQP! Fico imaginando como é desgraçada a vida desse cara.
Você diz que seu relacionamento anterior foi raso. Aí buscou profundidade e se afundou na merda!
Entenda que toda paixão não-correspondida gera uma depressão, uma ansiedade, uma síndrome do pânico. Você sofre sozinha por não ter o que tanto espera. Mas o que te levou a se entregar tanto a um relacionamento que só te fez sofrer? As experiências que tiveram? E daí? Você está deixando de ter novas experiências só por causa de um passado fodido. Ah, ele foi atencioso no começo? Coitado do cara que te der bom dia no elevador, então, hein?
Você usou esse namoro que, claramente, estava baseada apenas em sexo (pelo menos da parte dele) para justificar toda sua postura em relação à vida: dependente de alguém que seja o “motivo de sua alegria”. E o que é pior: com alguém sem experiência, que estava apenas querendo uma buceta pra se enfiar. É, homem pode fazer isso de uma maneira bem cruel: diz coisas que não sente, faz gestos que não gostaria... tudo pra ter sexo quando ele quiser. As amantes que ele teve provam isso. E não tem diferença ela ser jovem ou velha: é apenas uma postura do cara. Mas o ridículo não é ele procurar prazer em várias parceiras: é ele não te poupar disso! E se ele não te poupou, é sinal de que realmente não se importa com você.
Ah, mas então por que ele ficou todos esses anos contigo? Bom, tem esse lance de não saber como terminar com uma pessoa que coloca toda a responsabilidade pela felicidade dela nas costas do outro, sabe? O cara fica sem saber o que fazer com tanta dependência e vai tocando o barco adiante o máximo que pode.
Ele ficou com você por pena de você... e não porque te amava. Ele tinha medo de que você se matasse, fosse cometer qualquer tipo de loucura, ainda mais depois que se internou. Foi dó... puro e simples dó. E idiota você de aceitar isso. Eu odeio que sintam pena de mim ou de qualquer outra pessoa. É um sentimento tão ignorante, tão soberbo, tão sem razão.
Você transformou a relação em um “troféu”, onde queria ser mais que as outras, onde sempre tinha de “vencê-las” e continuar com seu trofeuzinho te ignorando. Mas ele não te quer na vida dele, nem quer ser presente na tua vida. Ponto.
O que fazer? Engolir o choro, deixar de ser idiota burra e ir viver sua vida, caralho! Mas como? É mais simples do que você quer imaginar. Pare de querer ser amiga dele, pare de querer ser uma coisa que você nunca foi nem nunca será. Deixe de procurá-lo, por mais que fique louca – quase literalmente – por informações a respeito dele. E como segurar a onda? Ocupe-se! Vá trabalhar, vá sair com amigos, vá namorar outras pessoas, escreva, se masturbe, beba... Mas seja egoísta! Quanto mais egoísta você for nesse processo de libertação, melhor será para conseguir sair dessa porra.
Assim você vai esquecê-lo? Não. Algum dia esquecerá? Não. Mas vai esquecer a dor que sente agora. Ficará apenas a decepção, a mágoa, o gosto amargo. E vai sobreviver a isso. Todo mundo sobrevive. Essa é a graça de se foder em amores platônicos.
É o que tenho pra você: deixe de ser idiota e ignorante e vá viver sua vida e deixe que o trouxa viva a vida dele da maneira como ele quiser. Enquanto você chora, ele provavelmente está fodendo alguém de quatro, sem o menor peso na consciência. E esse alguém que está de quatro também teve o amor platônico dela, mas seguiu adiante e agora busca conviver com a dor da desilusão. Faça o mesmo: vá ficar de quatro pra alguém que logo você se sentirá melhor...