"Descobri que era adotada. Às vezes, o sentimento de inferioridade se faz presente. Sinto-me infeliz por não saber realmente quem sou"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: ,
Querido Ogro,

É errado querer descobrir minhas verdadeiras origens?

Bom, tudo começou aos 8 anos, quando descobri que era adotada. Eu sei, isso não faz de mim uma pessoa pior que as outras. Mas, às vezes, o sentimento de inferioridade se faz presente... Sinto-me infeliz por não saber realmente quem sou, por não ter a mínima idéia de antecedentes, por fazer parte de uma história que não é minha, por mais maravilhosa que possa ser. Quando as pessoas começam a falar histórias sobre família, me sinto perdida e por mais que eu tenha uma, sempre me cai como uma estória.

Minha mãe adotiva é um amor, é o exemplo de melhor mãe do mundo e sem clichê, ok!? Fui criada sem a presença paterna, recebi (e ainda recebo) amor em dobro, ela sempre trabalhou e me educou da melhor forma possível. Hoje, ela tem uma doença séria, que a faz ter dores horríveis e tomar inúmeros remédios diariamente e injeções de tramal. E contudo, ela me faz querer ser alguém melhor, pois, ela é a peça-chave de tudo que sou e de tudo que irei ser!

Não falamos muito sobre minha adoção, e quando falamos, ela não me diz muita coisa. Apenas, o de sempre: que sou filha de uma empregada doméstica que mantinha um caso com o chefe, um cardiologista renomado - bem típico! - e que ela já tinha dois filhos e que seu pai não permitiria mais um neto dentro de casa, por isso, fui entregue pra adoção. O que mais me machuca é saber que ela não lutou por mim, que não foi capaz nem de me olhar após meu nascimento. Isso me faz odiá-la!

Sou fruto da luxúria, da foda errada, sou o que eles menos esperavam, o problema de noites intermináveis de insônia... Trago comigo esse sentimento de rejeição, por vezes, me sinto um lixo. Tenho medo de me aproximar das pessoas, medo de que elas me rejeitem - pois, se até a pessoa que me carregou durante 9 meses me rejeitou, imaginem uma pessoa "qualquer" - e, por isso, prefiro ser companheira da minha própria companhia. Não faço o tipo de adolescente rebelde. Aos 17 anos, sou uma aluna aplicada, não sou 'baladeira', não corro atrás de menininhos colírios e/ou essas coisas que qualquer adolescente da minha idade faz. Sou apaixonada por coisas antigas, acho que por isso preciso descobrir quem realmente sou. Preciso saber de onde vem minha paixão pelos Beatles, o por quê de me encantar por filmes antigos, de amar o estilo das pin-ups, de gostar de escrever... Ou simplesmente, preciso preencher esse maldito vazio.

Às vezes, penso que posso parecer uma "persona non grata" com tudo que minha mãe me proporcionou na vida e tenho medo de machucá-la, ao dizer que quero conhecer meus pais biológicos.

Ogro, me sinto vazia, confusa... não sei o que devo fazer.

Gostaria de conhecê-los e encará-los, esclarecer minhas dúvidas, do tipo: "Por que fizeram isso? Por que comigo?" E ao mesmo tempo, sinto medo. Medo de não conseguir mais odiá-los, deles me convencerem de que foi o melhor. Não foi o melhor, por mais que possa ser, NÃO FOI! Olha pra mim, eu sou vazia e insegura... eles não são meus pais, são apenas meus malditos progenitores. Sinto como se faltasse um pedaço de mim e eu quero gritar, preciso que me devolvam, mas tudo que consigo fazer é chorar. Que caralho de coração, não se pode arrancar essa droga fora?

Me diz, o que devo fazer? Quero manter minha identidade preservada. Acompanho o seu blog e sei como algumas pessoas se 'portam' com o sofrimento alheio. Te vejo ajudando mulheres e garotas... preciso que me ajude, Ogro, por favor!


Minha cara confusa lesada,

Você tem a resposta pra todas suas angústias e dúvidas. Apenas não consegue enxergá-las. Talvez nem tenha chegado a hora de compreende-las. Talvez. Mas o fato é: muito do que sente não tem muito a ver com o fato de ser adotada. Essa foi a "desculpa" que encontrou pra alimentar o drama e ter motivos para ser infeliz. É, a gente adora um impiedoso drama auto-piedoso de vez em quando.

Tem todo o direito de querer conhecer seus pais biológicos. Mas isso iria mudar algo? Essa sua falsa esperança de querer "preencher" algo com essa descoberta pode soar como injustiça. E, às vezes, é. Como pode achar que faz parte de uma história que não é a sua? Porra, quem viveu aquilo tudo que você viveu, então? O Bozo, caralho?

Na tentativa de projetar seu vazio típico da adolescência, está machucando toda uma história que é sua, sim. E que tem uma pessoa maravilhosamente envolvida: sua mãe. Você mesma ressaltou isso: "é o exemplo de melhor mãe do mundo e sem clichê". Te criou sozinha, sem pai... te supriu em quase tudo e foi digna de ter te revelado que era adotada. Pois respeitou seu direito de saber. Como consegue admirar e amar essa "peça-chave" e ainda não sentir que faz parte da história dela?

Na realidade, você está com medo de perde-la e, com isso, perder sua referência no passado. Se ver sendo "abandonada" novamente te causa todo esse rebuliço de sentimentos. Mas o que viveram foi real, tá aí dentro. Isso ninguém poderá tirar. Nem mesmo sua mãe biológica.

Conhece-los não irá mudar nada nesse vazio que sente. Você está projetando no lugar errado e na hora errada. Aquiete um pouco seu coração. Como? Escrevendo. Bote num papel tudo o que sente, projete ali toda sua ira, frustração, vazio, dúvidas. Escrever é esquecer, já dizia Fernando Pessoa. Leia autores que lhe soem reais e que te entendam. Ouça músicas que foram escritas pra você.

Mas pare de procurar referências genéticas em tudo o que faz, seja em seu comportamento, seja em seus gostos. Muito do que sente está ligado diretamente a sua idade. Todo adolescente se sente diferente. Seja em relação ao amor, seja em relação ao sexo ou em relação aos pais, mesmo. Leia esses três textos e verá que tem muito de você ali. São dúvidas diferentes motivadas pelo mesmo sentimento inquieto.

Busque referências. Chore. E respire.

12 comentários:

  1. carol disse...
  2. Sempre comento deixando a minha opinião sobre o caso. Hoje, me calo...
    Me calo em respeito a toda coerência que vi escrita ali para uma menina de 17 anos que precisa só de um norte...
    Linda... somos metade genética, metade criação... você é mais da sua mãe adotiva do que pode supor...
    Me emocionei lendo a resposta e acho que não tem muito mais a ser falado. Apenas leia tudo de novo e quantas vezes for preciso.
    Beijos

  3. @carlajatoba disse...
  4. Cresci com minha mãe fazendo referências à um pai que nunca tive. Não na minha vida. Mas essa dúvida muitas vezes passou pela minha cabeça. Com quem me pareço, porque esse gênio, etc, etc, etc! E só vim a conhecê-lo com 18 anos. E ele apareceu e sumiu novamente! E isso só serviu pra eu ter a certeza ABSOLUTA que não preciso daquele idiota na minha vida. Às vezes a gente acha mesmo que TUDO na vida da gente vai mudar quando esse tal "encontro" acontecer, mas o fato é que NADA muda. Não se pode modificar o passado... Então porque não pensar em construir uma história diferente? Eu me dei a família que não tive. E sou a mais feliz da vida com essa família que me "adotou". Não existe amor maior!!!

  5. Confusa aos 17 disse...
  6. Bom, fui eu quem escrevi para o Querido Ogro.
    Queria agradecê-lo por querer me ajudar e por se importar com problemas que não o pertencem. Não é só por mim, e sim por todas!

    Carol, eu acompanho o "Querido Ogro" há um certo tempo, desde a entrevista do Tico Santa Cruz, e sempre vejo seus comentários. Queria agradecê-la também, obrigada por se importar e pelo que citou. Bjs

    @carlajatoba não é fácil, né?! Há sempre dúvidas e curiosidades e uma eventual decepção, o que acaba nos causando medo! Obrigada. Bjs

  7. carol disse...
  8. Coisas bonitas e boas acontecem quando as pessoas se dispoem a ouvir o próximo e transmitir coisas boas.........
    Cada um de nós tem algum experiência que pode ajudar ao outro e não é tão difícil assim se importar .... beijos

  9. Drica disse...
  10. É complicado, mas você recebeu tanto amor da sua mãe, talvez seria o caso de encontrar algo a que se dedicar para preencher esse seu vazio. Que tal vc visitar um orfanato e ver quantas crianças não tiveram a oportunidade de ter uma mãe maravilhosa que vc teve? Mãe é a que cria, ela é sua origem.
    Será que se vc tivesse sido criada por sua geniotra vc estaria tão bem como está agora? Teria tido tanto amor como tem?

  11. Bruninha disse...
  12. Querida, todos nós somos adotados. Adotados pelo amor do outro. E esse outro pode ou não ter laços sanguíneos conosco.
    Sei que deve existir uma curiosidade imensa para saber suas reais origens. Mas acho que é uma questão de foco. Que tal focar-se mais naquilo que realmente faz parte do seu "real" e deixar o "imaginário" para outras situações?
    O Felipe foi muito feliz quando falou em projeções. Vou um pouco além. Somos responsáveis, mesmo que inconscientemente, por aquilo (ou aquele) em que nos projetamos. É possível mudar isso.
    Cuide de você, das pessoas que estão ao seu redor. O destino vai te conduzir ao melhor caminho.
    Be happy!

  13. Isabel disse...
  14. Eu ja penso um pouco diferente sobre adoção. Acho que não existe ato de amor maior do que esse. Não pense que vc foi rejeitada, pense que vc foi a ESCOLHIDA, dentre milhões de crianças que estão para adoção sua mãe escolheu vc para amar. E como vc mesma disse ela o fez como ninguém.
    Vc é privilegiada por isso, foi escolhida, foi amada, foi querida como muitas pessoas não são.
    Imagino que vc deve ficar curiosa mesmo para saber quem são seus pais biologicos, mas sobre isso o felipe ja postou tudo. E esse lance da projeção eu concordo totalmente.

    Enfim, pense na alegria de sua mãe adotiva na primeira vez que te pegou no colo, na primeira frauda que ela trocou, no primeiro banho que ela te deu, na primeira vez que ela te levou para escola... pense em como ela foi e é feliz por ter vc na vida dela.

  15. Sarah disse...
  16. Vou te contar uma coisa, tmb sou adotada e nunca me senti assim. Soube dessa adoção aos 8 anos tmb e para mim não mudou nada. Na verdade mudou, passei a amar muiiittoo mais aquela família que me acolhei com tanto amor e infinito carinho.
    Não me sinto como adotada, e nem lembro disso, pois minha criação não foi voltada a esta adoção.
    Não vejo necessidade em você querer conhecer seus pais biológicos. Pelo menos eu não tenho a minima. Meu marido diz que é pelo fato deles não terem a mesma condição social que eu passei a ter. Bobagem, isso não tem nada a ver.É simplismente pelo fato de não ter interesse em conhecer alguém que não sinto afeto, ou até mesmo curiosidade.
    As vezes a gente tem vontade de conhecer, sei lá, o Papa. Pq? Porque vc já sabe um pouco dele, da vida que ele leva, e pelo fato de admirá-lo. Mas os pais biologicos? Não sei. Eu não tenho vontade mas se um dia chegar a conhcê-los a única coisa que posso dizer é OBRIGADA, por ter me deixado nascer, e por terem a consciencia de que eles não poderiam me criar como eles queriam e que tudo que fizeram foi para meu bem, para minha felicidade.
    Tenho certeza que meus pais biológicos estão felizes e tranquilos, por imaginar que eu não estou sofrendo ou passando alguma necessidade. Que um casal me acolheu com os mesmo amor deles.
    Não sei se vc pensa assim, ou se vc devia pensar assim. Mas com certeza, descobrir quem são de imediato não vai mudar em nada a sua vida.

  17. Mari disse...
  18. Nossa acho que o que disse é muito igual ao que sinto, ao que penso.. Também sou adotada mas nunca encontro ninguém para conversar sobre isso, porque pessoas que não passaram por isso nunca entenderão.. Mas o que você disse realmente se encaixa certinho com o que penso.

  19. Anônimo disse...
  20. Bom, concordo com Mari. Tbm sou a adotada e passo pela mesma coisa que Carol.
    Acredito tbm que quem não passa por isso fica bem difícil de entender isso é fato....


    Tenho 26 anos e hj começo a minha procura por minha historia oculta.

    Caso queiram conversar deixo meu e-mail mayarafandrade@hotmail.com.

    beijos em vcs

    maya

  21. Anônimo disse...
  22. So queria resaltar que em caso de adoção, não precisa sentir raiva e nem odio pela pessoa que se desfez de vc no passado.
    Não sabemos o que realmente acontecia, e os motivos.
    Eu não tenho raiva e nunca cobrei de minha mãe biologica, infelizmente ela veio a falecer depois de 28 anos de espera para eu poder realizar um sonho, e acabamos convivendo somente 3 meses.
    Mas mesmo assim, nunca cobrei, só pergutei quem era meu pai, ela me disse e hj temos uma convivencia razoavel, estamos nós conhecendo, e ja conheci muita gente, familia biologica.
    Tudo foi magico,perfeito e hj mantenho contato com todos.
    Me lembro no primeiro encontro ela me perguntou se eu tinha raiva dela e que eu podia cobrar qualquer explicação, so respondi que eu fazia parte da historia dela, mas que não tinha raiva e não queria cobrar nada, só queria curtir esse tempo que ficamos longe.
    E depois passamos finais de semana lindos e perfeitos.
    Então não cobre e odeie...
    Apenas curta pq a vida e muito curta e passa muito rapido.

  23. Anônimo disse...
  24. Olá... eu stou na mesma situação, fui deixada em frente a porta da casa dos meus pais, dentro de uma cestinha e com uma carta dizendo que não tinham condições de me criar e que tinham certeza que ali eu ia ser bem criada (meu pai, que já tinha 2 meninos, era louco pra ter uma filha mulher).. hoje eu tenho 28 anos e estou começando essa busca..
    Se alguém quiser conversar, meu e-mail é: belizafortuna@hotmail.com

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