“Me senti abusada, um lixo. Quando tudo acabou, ele ainda quis me beijar, pediu água, me abraçou...”

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Querido Ogro

Talvez minha pequena e breve história de uma menina de 15 anos não seja assim, talvez, tão dolorida ao comparar com dificuldades de muitas outras meninas que escreveram para você, mas te digo que é dolorida o bastante para trazer nesse meu pequeno livro que ainda estou a escrever, se prepare por que vai começar.

Minha mãe era evangélica meu pai também toda família torcia pra um casamento deles, se casaram muitos novos, tiveram uma vida boa, compravam o que queriam, porém só quem aproveitou isso foi minha irmã mais velha. Após minha irmã completar 6 anos, eles se separaram, minha mãe se mudou, começou uma nova vida, enquanto ele ia à falência com amantes. Sabendo da boa vida dela, ele voltou atrás, a engravidou de mim só pra ficar no “bem bom”. Minha avó quando soube da gravidez, implorou por um aborto, mas os remédios não deram resposta.

Com seis meses de vida, ele nos deixou por uma amante e aí vieram as dificuldades. Cresci sem pai, passando fome por que minha mãe não tinha emprego pra comprar o meu leite, ela saia atrás de emprego todos os dias pela manhã e só chegava a noite, minha irmã ia estudar e eu ficava na creche. Com 4 ou 5 anos de idade, meus amigos eram meus livros, aprendi logo a ler e escrever sozinha, muito nova era a unica a ler e escrever na creche. Me dói saber que não tive uma mãe ou um pai do meu lado pra me ensinar, muitos menos pra cuidar, muitas vezes ficava em casa só, sem atenção... não me lembro dessas coisas acho que foi apagado da minha memória toda aquela dor.

Com 8 anos comecei a ver pessoas mortas em todo canto da casa e conversava com eles. Pra mim eram amigos, era muito pequena e não entendia, chorava muito e fazia escândalos, queria e implorava por atenção, queria um colo, um abraço não queria ficar só. Quando via minha mãe saindo de casa, chorava e implorava pra ir com ela, isso só com 8 anos. Nunca tive atenção, nunca falei com minha mãe, nunca ouvi minha mãe contar uma história pra mim, me levar em um parque ou perguntar como foi o meu dia.

Me dói quando minha família me vê e me olham falando: “essa é aquela menina ruim que chorava e fazia escândalo”, como se me rejeitassem... mas, querido ogro, não me lembro de nada da minha infância como se Deus tivesse apagado da minha memória pra não chorar mais. A única lembrança é de quando chorei muito e minha mãe me amarrou no pé da cama e depois me deu uma surra. Quando me desamarrou, fui tomar um banho toda vermelha e marcada. A única lembrança boa era de brincar no quarto sozinha com minhas panelinhas.

Os relacionamentos conturbados da minha mãe me atrapalharam, um dos meus padrastos me trancava no banheiro no escuro. Eu era ruim, admito, mas eu chorava para sair e ele não me tirava e assim fui crescendo rebelde, revoltada, triste.

Hoje com 15 anos estou em uma depressão horrível, me corto muitas vezes com facas pois ajuda a passar a dor da tristeza. Sim, continuo sem atenção da minha mãe e de toda família, mal vejo meu pai... às vezes ele aparece quando precisa que faça algo. Minha pequena e breve alegria era meu ex-namorado, até mês passado com o que aconteceu, era virgem e ainda sou, pelo menos é o que quero pensar.

Estava com ele na rua, já era tarde, ele me deixava em casa e sempre disse que respeitaria o meu tempo, mas não foi assim: na minha rua havia uma construção, ele me puxou lá pra dentro e começou a me agarrar. Eu pedia pra parar porque não estava preparada, mas ele não parava. Eu empurrava ele pra longe de mim, mas ele mandava eu ficar quieta e calma. Fiquei paralisada com a dor, ele começou a me masturbar, eu pedia pra parar por que estava doendo, pois nunca tinha feito isso. Ele pedia pra que eu ficasse calada. Eu me paralisei, não me movia, estava em choque. A minha primeira vez era como um sonho pra mim, logo ele que só estava comigo há três semanas, estava aprendendo a ama-lo, ainda não estava apaixonada...

Me senti abusada, um lixo, um vômito. Quando tudo acabou, ele ainda quis me beijar, pediu água, me abraçou... Eu obedecia, parecia não ser eu ali, mas quando entrei não chorei, segurei minhas lagrimas e me calei, então vi que minha calcinha havia sangrado. Não houve penetração, ele só me masturbava com muita agressividade, dava tapa na minha cara, nunca tinha passado por isso, era estranho... Por isso digo que em minha mente sou virgem, pois acredito que só perderei quando for pra cama com um homem querendo estar lá e sim quando acontecer penetração. Pesquisando na internet vi que meu hímen pode não ter rompido, pois com a violência da masturbação ele pode ter me machucado e não ter rompido, sangrado apenas pela violência que ele teve comigo

Uma semana depois ele não veio mais atrás de mim. Aí, sim, chorei... chorei por achar que era culpa minha o que tinha acontecido, era pra ser mais dura e tirado ele de perto de mim. Por ser fiel a Deus, olhei pro céu e pedi perdão, estava triste me sentindo um vômito, achando que a culpa era minha, mas também sei que sou muito inocente, nunca tinha sequer me masturbado. O que me dói é ele sair por ai falando que é evangélico, crente... e fez isso comigo!

Me ajude. Estou muito mal, por favor me ajude, me responda, gosto da maneira como fala bruto, porém fala a verdade de uma maneira que irá me empurrar a seguir em frente e esquecer o acontecido, esquecer toda essa história de solidão. Por favor, peço que não fale minha identidade.


Minha cara bagunçada;

Primeiro: você precisa parar de falar que tudo o que aconteceu a você foi por conta do seu passado. Você mesma diz que não tem memórias dessa época, como pode afirmar que tudo foi por conta do que te aconteceu? O que você está fazendo é apenas projetando sua frustração atual nessa lacuna do seu passado. Você criou um universo onde tudo para você está baseado no que te aconteceu no passado sendo que você não se lembra de nada daquilo! Muito do que você fala sobre seu pai, por exemplo, é baseado no que sua mãe conta sobre ele. E como ela foi traída, obviamente que não falará bem dele pra você. Perceba como você coloca a vida deles como uma coisa perfeita até o seu nascimento e, depois disso, tudo foi uma merda. Porra... não, né!?

Você não pode afirmar isso, você era criança, não tinha acesso ao que acontecia. É por isso que você não tem memória disso tudo. Quem tem lembranças reais e concretas da vida aos 3 ou 4 anos? Ninguém! São flashes de pequenas coisas que se mantém na cabeça, apenas. Mas você conta como se fosse um filme, com todo o enredo já traçado e com os vilões estabelecidos.

Isso de falar que aprende a ler sozinha, que os livros eram sua companhia... tudo isso é projeção sua na tentativa de preencher o que está em branco na sua mente. Mesmo isso de falar com espíritos: a maioria das pessoas que julgam passar por estados de abandono tendem a acreditar que falavam com pessoas mortas e as viam como amigos.

Você pega o seu estado atual e projeta tudo no passado e isso se torna crível pra você. Qualquer coisa que você julgar ter acontecido no passado será colocado em um espaço da sua mente como sendo verdade. Não digo que não tenha tido o que alega ter passado, mas não foi da forma como você apresenta. Tudo agora está intenso e potencializado por uma violência sofrida por você.

E é nesse ponto que deve se focar: aprender a lidar com as projeções que faz nos outros e no próprio passado. Perceba como se refere ao seu ex-namorado: era o único que te trazia breves momentos de alegria. Mas namoraram por três semanas, apenas! E ele se mostrou ser um idiota monstruoso ao te atacar dessa forma.

Você diz que estava aprendendo a amá-lo e que ainda não estava apaixonada. Em três semanas! Perceba onde você erra: você joga nos outros aquilo que você sente e logo em seguida os responsabiliza por sua tristeza. Como pode afirmar que estava aprendendo a amar sendo que nem apaixonada estava? E em menos de um mês?!

Entenda: o que ele fez, ter te atacado, não foi sua culpa. Isso ninguém poderá impor a você: a responsabilidade por algo tão mesquinho e desumano. Ele é o responsável por não respeitá-la e tão somente ele deve ser o culpado por isso.

Mas você erra, sim, ao projetar demais. E não é que seja culpa sua, mas há uma consequência a ser arcada com esse tipo de comportamento. Você acaba não se conhecendo o suficiente pra entender como as coisas funcionam contigo. E tem o principal ponto nisso tudo: você só tem 15 anos, minha cara! Ninguém sabe de nada aos 15! Lógico que ser molestada como você foi não ajudará em nada, mas você se sentiria da mesma forma caso o visse saindo com outra menina: se sentiria um lixo, violada, violentada e humilhada. Porque é um primeiro relacionamento... você teve o azar de encontrar um idiota machista que não aceita “não” como resposta.

O que te falta são respostas para suas lacunas vazias no passado. Só assim irá parar de preenchê-las com qualquer coisa que justifique sua vitimização como a maior coitada que existe na Terra. Quantas adolescentes você conhece que se cortam? E que tem graves problemas de relacionamento com a mãe? E que se sentem a injustiçada da família? E que encontraram namorados imbecis e machistas que não as respeitaram? Eu posso te dar uma lista em qualquer lugar... aqui mesmo no blog tem vários casos.

Você sofreu uma violência que te deixou assustada e com razão. E isso aflorou tudo o que julgava ter acontecido com você, com todos os detalhes que você acredita ter mesmo alegando não ter memórias sobre a época. Calma, essa fase é ruim pra caralho, mas há de passar. Basta você aprender a parar de ter pena de você, parar de colocar a culpa na sua mãe e pai e entender que a adolescência é esse período de consternação e não inserção na sociedade. Se você tivesse tido uma suposta infância perfeita, iria usar outras desculpas para justificar seu estado de tristeza e solidão.

Quanto ao seu ex, mantenha distância, não ceda à chantagem emocional. Você não precisa ter contato com isso nem com esse tipo de gente. Ele te machucou e merece ser machucado. E eu conheço pelo menos uma meia dúzia de maneiras disso acontecer... mas são coisas que o seu Deus não permite.

Quer fazer algo com isso tudo que sente e pensa? Leia mais, veja filmes melhores, busque conversar com pessoas que possam te agregar algo, pare de se achar a traumatizada. Não queira ser essa imagem que você tenta passar porque você não é assim! Está mais do que óbvio que busca dramatizar demais a sua história...

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"Namoramos cinco meses e fui a primeira mulher dele. Ao início, ele andava maravilhado, mas passado uns tempos foi começando a ficar diferente"

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 4 comentários
Querido Ogro,

Sou portuguesa e descobri este magnífico blog, espero que também responda aos portugueses, porque como este blog nunca encontrei nenhum, fiquei fã!

Vou falar do meu relacionamento com o meu ex-namorado: eu ainda gosto bastante dele e estou a sofrer horrores porque ele já não sente o mesmo por mim. Namoramos cinco meses e fui a primeira mulher dele (temos ambos 24 anos). Ao início, ele andava maravilhado, apaixonado, fazia tudo por mim, mas passado uns tempos foi começando a ficar diferente e a dizer que queria começar a divertir-se mais com os amigos.

É uma injustiça isto, estou revoltada e gosto dele como nunca gostei de ninguém. O que faço à minha vida? Andamos a sete meses só como "amigos coloridos" depois de meses de namoro. Ontem estivemos juntos e ele disse que não queria que eu gostasse dele porque ele não sente o mesmo e assim não consegue andar com a vida dele para a frente.

Eu fiquei com tanta raiva. Ele pediu-me em casamento, passamos cinco meses lindos... eu não percebo o que houve. Ajude-me a tentar entender, por favor, porque eu penso que por ele ter iniciado a sua vida sexual agora quer mais mulheres é isso? (Eu é que já não era virgem)

Obrigado e beijinhos.

Minha cara lusitana iludida;

Pois é: brasileira, portuguesa, alemã, sereia, marciana... todas acabam se pegando nessas histórias fantasiosas que criamos na cabeça em relação ao amor. Eu entendo, sou meio mulher nessa porra também...

O que acontece é o pior que pode acontecer a alguém apaixonado: a outra pessoa simplesmente não te ama e a paixão acabou. Ele gosta, sim, do sexo e por isso a mantém como uma foda fácil e esporádica. Mas não é o bastante para fazê-lo assumir um compromisso com você. Dói, é horrível conceber essa ideia do fim, mas está terminado.

E convenhamos: vocês namoraram por cinco meses, apenas. Tenho coisa na minha geladeira que está lá há mais tempo que a relação de vocês e nem por isso estragou da forma como a sua estragou. Para de colocar esses meses como se fossem uma vida porque não são!

O que acontece é que você se iludiu com o fato de ter sido a primeira dele e isso fez com que você se sentisse a única. Sim, foi a única a tirar o cabaço dele e agora outras irão desfrutar do caminho que você abriu. Conviva com isso: você foi a primeira foda dele, ele se apaixonou um pouco por conta do sexo, se deixou levar enquanto o pau estava duro e agora está partindo para outras.

E o melhor da história é que ele deixa isso claro pra você, que não gosta de você o suficiente, que gosta da transa contigo e que vai sair com outras. Não está sendo cafajeste nem inventando histórias românticas só pra te comer enquanto você fica lá, flutuando com falsas declarações. Se você tiver condições de aturar isso, continue a trepar com ele e ponto. Mas não fique com esse papinho de apaixonadinha enganada.

Você quem está criando um mundo onde não há elementos para você sustentá-lo. Tenha raiva dele, saia com outros, se desapegue daquilo que nunca existiu como você julgou existir. Aposto que tem algum brasileiro por aí que a fará esquecer rapidinho o gajo!

Tome um último porre por ele, vire uma boa garrafa do Porto pra garganta, chore tudo o que tiver de chorar e limpe o rosto e prometa a você nunca mais chorar por esse cidadão. Que essa seja sua última lágrima por ele.

E aposto contigo: após essa mudança de postura, ele fatalmente irá te notar diferente e voltará a correr atrás querendo não só o sexo, mas sua atenção em geral. E aí será sua vez de desdenhar, de ignorar e deixar claro que está em outra. Ou em outras.

No final, você verá o quanto de falta não sentirá dele.

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“Também comprometido, começou como aventura e rapidamente começamos a nos encontrar todo o final da noite todos os dias”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 6 comentários

Querido Ogro, 
 
 Bom, nem sei por onde começar. Li alguns relatos aqui escritos e sinceramente nem sei muito bem o que espero ouvir de você, já que no fundo eu própria sei todas as respostas, apenas não quero ver ou tenho medo de ver a verdade.
 
 Vivo um relacionamento muito legal há alguns anos. Digamos que meu relacionamento é “perfeito” para todos que me rodeiam e eu adoro ele, mas a “menina mimada” aqui precisava de mais aventura, algo que me fizesse viver. Me envolvi com o pior de todos, sabia com quem estava lidando, conhecia ele. Também comprometido, começou como aventura, desejo e rapidamente começamos a nos encontrar todo o final da noite todos os dias. Mensagens para aqui, mensagens para lá, éramos como namorados, mas escondidos.
 
 O tempo foi passando e desde o inicio sabia que ele não era o tipo de homem que fica apenas só com uma mulher. Conhecia-o bem e não precisei de muito para descobrir as suas mentiras – mentiroso compulsivo -,  se metendo com outras mulheres, marcando outros encontros. Acedi às suas contas e descobri as suas traições à namorada desde o inicio. Apenas provei aquilo que teoricamente já sabia, né?
 
 Me afastei, sofri e voltei... Passamos um ano juntos e “separados” pelas nossas relações. Bom, mas estava tudo bem. Algumas discussões, mas sempre juntos. Até que ele foi viver para casa dos pais da namorada e aí quis me afastar, já que ele teoricamente passaria a ser “homem casado”. Me pediu para ficar, que tudo daria certo. No inicio comecei a perceber que ele estava todo entusiasmado com a nova vida e me senti sobrando na sua vida. Tentei me afastar, mas o que tínhamos vivido era mais forte do que eu.
 
 Até que percebi que, com o passar do tempo, seu entusiasmo para o lado de lá quebrou e ele se mostrava “mais apaixonado” por nós do que nunca. Me sentia feliz, tínhamos sempre nossas discussões, mas tudo bem... Até que, de repente, tudo mudou novamente: o cara carinhoso desapareceu, deixou de enviar SMS, se afastou. Mas covardemente continuava dizendo que me adorava, que me desejava, mas não poderíamos mais permanecer juntos. Corri atrás, por vezes penso até que me humilhei! E se te disser que sou “a gatinha” que todos babam e querem...
 
 Foi uma luta constante e pensei que tinha perdido. Mas não: todo o dia, novamente, tinha suas mensagens, tinha seus mimos e mais uma vez no final de algum tempo noto-o novamente mais frio e se afastando. As mensagens são apenas aquele contato para não me perder. Aqui nem digo todas as loucuras que fiz por ele, tudo o que passamos, tudo o que lutei para que mesmo traindo ele permanecesse comigo. Mas me sinto presa a um amor que é só meu, a uma paixão que me fez desistir de minha vida e não quero mais isto.
 
 Minha cabeça pensa assim e meu coração o quer e muito. Tenho medo de o perder, sim, mas acho que nunca o tive mesmo, né?! Preciso me afastar, mas como? Nem conto metade de meu sofrimento por um cara que a mim não é nada. Entrei numa guerra que nem me pertence, sabe?
 
 É tão ruim ver que eu não preciso dele para nada e não me consigo desprender dele. Sim, porque ele fica neste de “quero e não quero”, mas quando eu digo que desisti dele, ele insiste, insiste e insiste... O que eu faço para viver minha vida em paz sem ele? É estranho, mas eu vivi todo este tempo para ele e em função dele... Para quê? Estou desgastada e cansada.
  
Cara apaixonada idiota,

Se sabe as respostas, qual a razão de buscar outras perguntas? Se sabe mesmo o que está acontecendo, a atitude mais coerente e sensata seria justamente agir de acordo com o que já sabe, certo?

Errado.

Você não sabe o que acontece. Você se baseia no que sente e acha que isso está lhe dando todas as respostas necessárias. Mas não acredita no que está a se responder, por isso busca novos dilemas e novas dúvidas. Assim se mantém presa ao velho hábito de se vitimar para que não lide com as consequências dos seus atos. Às vezes até dá certo. Por um tempo.

Vejamos: está numa relação extraconjugal dupla. Você namora, ele também, praticamente casado. Chega a ser um clichê tão clássico que dispensa apresentações. O problema é que uma relação assim, com o passar do tempo, exige concessões demais e nem todos estão dispostos a ceder o suficiente. Uns não acham justo, outros simplesmente não aguentam a carga. E acredite: ainda não sofreu tudo o que uma relação assim é capaz de trazer.

A tua incoerência é gritante e inerente aos apaixonados funcionais: se mantém incoerente para alimentar a paixão com mágoa e dúvida. Quanto mais se rasga se cobrando respostas, mais se sente uma anti-heroína que sofre todas as dores do mundo por um amor incompreendido e não merecedor. O amaldiçoa por não dar valor ao que faz ao mesmo tempo em que o exalta como sendo a reprodução do melhor amor que já viveu.

Diz que o conhecia, que sabia onde estava se metendo, mas quando confirmou isso, se sentiu uma idiota por ter acreditado que poderia fazê-lo mudar. Achou que seria aquela que chega e transforma o vinho em água purificada, quase como um prêmio a ser erguido. Mas se realmente o conhecesse, não teria invadido suas contas e nem se chocado com as traições pródigas dele. Você achou que o conhecesse e se julgou acima do que realmente representava a ele. E foi aí sua primeira decepção, aquela que joga álcool em cima da chama da maior paixão que a sua vida já teve nos últimos dias ou nas últimas horas. (Sim, é efêmero a esse ponto).

O que quer que eu te diga? Que vale a pena lutar, que por ele você será capaz de se doar insanamente, sugando qualquer vestígio de energia que lhe restar para que, um dia, possam viver felizes e rindo dos tempos em que se encontravam escondidos, traçando os planos para o futuro?

Isso não vai acontecer.

Ele continuará a sair com outras, vai te manter assim como uma paixãozinha que alimenta o ego fragmentado dele. Ele não vai se separar da “quase esposa”, provavelmente casarão e manterão as aparências por anos até que um filho nasça. Assim, ele se sentirá ainda mais preso àquela relação e você continuará sendo uma das válvulas que liberam as frustrações dele.

Fosse uma relação realmente digna de ser suportada, você veria diferença no comportamento dele. Sentiria que valeria a pena porque teria mais elementos para seguir acreditando que algo maior aconteceria. Mas não: a tendência é cada dia mais se sentir renegada, esquecida, um pedaço de grama cercada que se mantém verde a espera de alguém que chegue e pule a cerca.

Reveja seus conceitos sobre relacionamento e o que deve esperar de alguém e como deve tratar alguém. Seu namoro não está bem, por isso precisou de algo fora. E quando encontrou, foi justamente aquilo que não te ajudou em nada. Tudo isso é sinal de que está se baseando em preceitos deturpados sobre o que é, de fato, uma relação saudável. É bem provável que você não tenha passado dos 30 e ele também. Isso pesa e muito na forma como analisa as pessoas e a forma como se entrega e o que espera receber de volta.

Você não lutou o suficiente porque não há batalha a ser travada. Não sofreu o bastante porque não vale a pena. Está apegada ao simples fato de não querer aceitar que não é única na vida de alguém e insiste em tentar ser essa pessoa quase que se enfiando goela abaixo dele. Aceite que você foi mais uma na lista dele, que assim como ele conseguia horário para te ver várias vezes durante a semana, ele também conseguia abrir espaço na agenda para alguma outra apaixonadinha como você. Porque se realmente valesse a pena, as posturas dele te dariam as respostas certas. Mas: será que já não deram? Hum...

Mas tenha um pouco de dignidade e resolva seu problema com seu namorado. Não vai querer mais esse peso na suas costas: o de manter uma pessoa que considera “boa e perfeita” em uma relação que claramente não tem futuro. Você não vê futuro nela, vai mantê-lo assim a troco de quê? Talvez pelo mesmo motivo que mantém o amante?

Está sofrendo a mesma coisa que está causando a outro.
Corte o ciclo e verá uma mudança em algum lugar.
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“Ele entrou no trem lotado, de costas e me puxou pra junto dele. Tive todas as partes do meu corpo tocadas”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 5 comentários
Querido Ogro!

Estava desabafando meu problema com uma amiga e fui presenteada com o seu blog. Há tempos procuro um lugar onde possa colocar pra fora todo esse rancor que me persegue e aliviar meu coração. Só de ler as histórias em seu blog já me senti diferente, tem tanta gente com um peso maior nas costas que a gente se envergonha de carregar os nossos como se fossem os mais pesados do mundo. É difícil escrever pra você. Já relatei minha história pra muita gente, mas aqui falo na primeira pessoa, não como se estivesse contando a história de alguém, como acontece normalmente.

Eu costumava ser feliz. Apesar dos problemas familiares, eu costumava ser normal, ser espontânea, ser positiva. Sempre fui aquela pessoa que chega à festa e todo mundo sabe que chegou, que nunca dispensava um sorriso ou uma companhia....E nunca costumava ficar solteira. Sou extremamente visual nas minhas memórias, e como você vai perceber no meu relato, tenho muitas memórias fotográficas dos momentos que vivi.

Em 2006 eu já namorava há quatro anos e era completamente apaixonada pelo meu namorado, apesar de viver uma relação doentia e desgastada. Em meados de abril daquele ano, sofri um acidente de ônibus. A motorista não viu outro ônibus parado no ponto e não desviou a tempo. Atravessei o vidro da frente do ônibus e sofri traumatismo craniano. É engraçado porque as pessoas acham que você apaga na hora, mas eu lembro inclusive do mundo girando antes de bater no vidro, e dos meus óculos atravessando a rua. Quando voltei pra casa, ainda de cama, questionei meu namorado o porquê ainda não ter me visitado. Ele disse que tinha horror de hospital, mas que também não poderia me ver aquele dia pois tinha futebol com os amigos e já havia pago a quadra, logo, não ia perder dinheiro. Pra mim aquilo foi o fim. Não bastasse isso, ele apareceu depois do jogo, com o time todo em casa, e não subiu pra ver como eu estava. A relação começou a decair e terminei duas semanas depois. Passamos três anos entre declarações e sofrimentos.

Em 2009 foi diferente. Estava com síndrome do pânico há algum tempo, ainda por causa do acidente: em alguns períodos me recuperava e levava uma vida normal, em outros me trancava em casa e não conseguia sair no quintal. Passei seis meses em casa, no auge da crise neste ano. Em meados de fevereiro reencontrei um amor de adolescência, que eu acreditava ser a salvação dos meus problemas.

Começamos a namorar em abril, depois de declarações devotas feitas por ele. Recuperei aos poucos a vontade de sair e aos poucos a vida foi voltando ao normal. Precisava de um emprego, de uma vida como a de todo mundo. Em junho consegui! Estava radiante, a empresa era boa, e eu tinha todas as oportunidades de crescimento que eu precisava pra começar a vida que eu buscava; apesar de não ser na área que eu tinha estudado era o que eu achava que podia fazer, já que estava afastada do mercado a tanto tempo. Mal sabia eu que o inferno estava só começando.

Na quinta-feira da minha primeira semana no trabalho fiz tudo como sempre. Estava frio, e eu fui trabalhar com um sobretudo. Parte do meu trajeto era feito de trem. Na porta da estação fui abordada por um homem de social, com o terno nos braços, me fazendo uma pergunta. Eu estava com o fone de ouvido e, quando tirei pra perguntar o que ele queria, ele me abraçou com o braço do terno e encostou um objeto na minha cintura, pedindo pra eu me calar e entrar com ele na estação. Imaginei que fosse um sequestro relâmpago, um assalto, qualquer coisa do gênero, já que isso virou ação corriqueira em São Paulo. Até o momento em que paguei o meu trem e me pediu pra passar. Aquilo não era um assalto. Assaltantes não pagam a passagem de quem estão assaltando. Às 18h as estações estão lotadas. Enquanto o trem não chegava ouvi todas as coisas mais nojentas que jamais pensei ouvir de alguém (hoje me pergunto como existem pessoas que tem fantasias sexuais com esse tipo de coisa).

Ele entrou no trem lotado, de costas e me puxou pra junto dele, me deixando encostada na porta. Foram os 10 minutos mais agonizantes da minha vida. Nem atravessar o vidro do ônibus foi tão assustador. Tive todas as partes do meu corpo tocadas enquanto continuava ouvindo os absurdos que ele falava, e não sei dizer o tamanho do vazio que dá se sentir exprimida por milhões de pessoas dentro daquele vagão e nenhuma perceber a loucura que você está vivendo. A estação seguinte era exatamente a que com maior fluxo, e fui jogada pra fora do trem, conseguindo me soltar do filho de uma puta.

Quando percebi que ele não me abraçava mais, corri até o final da estação, tentando fugir. Ele correu atrás. Quando ouvi o sinal de fechamento da porta corri pra dentro do vagão, rezando pra ele não entrar junto. Ele não conseguiu entrar, mas ficou na porta me encarando e rindo. Não sei como cheguei em casa. Sei que encostei na porta do outro lado e cai sentada na estação quando a porta abriu. Tomei cinco banhos aquele dia. O nojo e a sujeira não iam embora do meu corpo, e continuaram lá por algum tempo.

Fiquei um dia afastada do trabalho, porque tinha que fazer o boletim de ocorrência e todas as burocracias mais. Ironicamente fiquei noiva no dia seguinte. E solteira três meses depois. Meu namorado nunca mais tocou em mim. Nem de mãos dadas eu conseguia sair.

Não bastasse todo o fardo emocional que esse canalha me presenteou, volto ao escritório na segunda e começo a receber e-mails, ligações e convites de almoço executivo de dois chefes da empresa. Eu não sabia mais como reagir. Minha família cobrava que eu continuasse no emprego, o salário era bom e pagava todas as regalias que eu sempre tive. E eu não conseguia mais me abrir. Não conseguia contar em casa o porquê queria sair, tinha vergonha, afinal, na minha cabeça, a culpa era minha. Eu era magra, bonita, chamava atenção. Fui eu que causei todo esse mal.

Engordei 35 kg em três anos. Não saí da empresa. E quanto mais eu engordava mais os convites vinham, mais a nojeira continuava. É fato. Eu só fui violentada fisicamente no trem, por um estranho. Mas vivi três anos de violência psicológica no trabalho. Não aceitei nenhuma promoção, nem cresci na empresa como pretendia. Tirei tanta licença médica que parecia uma doente crônica. E com as licenças o assédio moral do resto dos funcionários crescia também. E eu continuava calada. Não tinha coragem de falar, era como se eu fosse viver tudo de novo. E eu não queria.

Foram três anos de aflição que eu estou me libertando neste e-mail. Em fevereiro entrei em licença pelo INSS e não retornei. Contei pra minha família, pra minha psicóloga e decidi fazer por mim. Perdi 20 dos 35 quilos que engordei. Voltei a olhar no espelho. Depois de três anos sem deixar ninguém encostar em mim, estou namorando um cara maravilhoso que entende todos os meus medos e me ajuda a ser melhor. Voltei a ter relações. Mas o vazio continuava ali. Eu precisava arrancar isso. E esta semana tomei coragem. Liguei pro dono da empresa e pedi as contas. Me desvencilhei do meu maior pesadelo. Da empresa e dos seus cretinos, do caminho diário pra casa relembrando aquele filho da puta.

Continuo com medo. Encontrei alguém capaz de me ajudar a enfrentar tudo isso, mas até que ponto ele vai ser forte o suficiente pra não cair fora feito meu ex? Tenho medo que o peso da minha história me faça perder alguém que tem me dado forças pra me recuperar, que me reensinou a amar. Mais que isso: me ensinou a me deixar ser amada, depois de tantos relacionamentos falidos e traumas.

Sei que foi longo e peço desculpas, querido Ogro. Mas você está me libertando de uma dor que não me deixa viver desde 2009. E sou imensamente grata por esse tempo que perdeu lendo essas linhas!

Abraços com carinho.

Minha cara desabada,

Finalmente desabou esse castelo de dores que te refugiava da vida há anos, hein? Chega uma hora em que todos construímos esses castelos, como uma fortaleza segura das dores que por ventura virão com o passar dos anos. Mas é um castelo feito de vários tijolos atirados e não recolhidos. É como se o que já tiver doído for o suficiente para evitar novas dores.

E qual o principal problema com esse castelo? Ele não permite que as dores antigas sejam dissipadas ou, ao menos, amenizadas. O medo de doer de novo é tão foda que preferimos nos agarrar ao que já doeu, ao que é normal para nós. Mas não é natural...

A gente não precisa desses castelos. Esses muros impedem que a vida chegue até você. O que é um cercado dado como seguro, é apenas um foco de amarguras, dores e agonias. E dificilmente alguém conseguirá transpor tais barreiras para te resgatar. Mesmo que tenha a intenção, é um peso muito foda e talvez você mesma não queira esse peso para outra pessoa.

Vejamos: uma “simples” ocorrência de molestamento te causou isso. Aos olhos de outras pessoas, isso não é nada de mais e nem é pra causar tanto trauma. De fato, poderia ser pior. Mas foi angustiante o suficiente para te abalar da maneira como abalou. Talvez fosse em outra época, o impacto seria diferente. Mas você já estava debilitada emocionalmente há anos e isso foi o ápice para te jogar na vala por outros longos anos.

E essa porra de vala emocional adora nossa miséria. Foi ali que construiu seu castelo.

Você é uma prova de que qualquer tipo de violência pode deixar sequelas incrustadas na alma, por menos que seja. E é algo que não pode ser amenizado ou “deixado pra lá”. Não há diferença na mancha deixada, seja em um estupro consumado ou um “simples” passar de mãos. É uma invasão, é retirar de alguém o poder de decisão sobre seu próprio corpo e suas próprias vontades. Você deixa de ter o arbítrio sobre o que é seu e passa a ser refém de um medo e um vazio aterrorizante.

A sensação de insegurança que se abateu sobre você foi devastadora porque não foi em um local a esmo onde nunca mais passaria. Foi em uma zona de constante presença sua e todo dia o mesmo fantasma te rondava pelos malditos trilhos daqueles malditos túneis. E a forma como foi o assédio te tirou qualquer reação a ponto de não suportar nenhum outro tipo de assédio. Muitas mulheres – muitas mesmo! – sofrem o mesmo tipo de assédio no trabalho, mas com você havia o peso do trem e daquele filho da puta nojento. E ele se tornou quase como a personificação de toda represália sua contra o ser masculino. Ao ser assediada no trabalho, você se sentia novamente tocada como no vagão. E sua reação era a de querer fugir mas não ter para onde ir. Não conseguiu fugir do trem, não fugiu do trabalho... e ficou presa em algo muito torturante por tempo demais.

Ao engordar, se tornava “feia” para você mesma e, com isso, achava que seria feia para outros e isso evitaria os assédios. Mas há muita gente com caráter debilitado que adora alguém debilitado emocionalmente. Há uma doentia atração por alguém que está quebrado. E por isso o assédio crescia: por te verem exposta ao tentar não se expor. Sim, há muita gente doente nesse mundo... talvez os “normais” sejamos nós, viu?

Acumulou demais e teu corpo respondeu da mesma forma: com acúmulos do que você não precisava. Nesse tempo todo, quantas vezes não vomitou ao chegar em casa ou ao lembrar de tudo no meio da noite? Era uma maneira de botar pra fora aquilo que não conseguia verbalizar. O corpo cobra um preço muito alto por esses acúmulos emocionais.

Mas agora você está voltando ao que considera ideal. Está buscando respirar e começou a sair do castelo. O medo é mais do que natural: é necessário. O medo é o que nos torna vivo e nos mantém aquecido. É o que te faz trancar a porta de casa, travar o carro, guardar dinheiro no banco e pagar plano de saúde. Sem o medo, viveríamos muito menos.

O problema é quando o medo vira pavor. O pavor engessa, te trava as pernas e a garganta, te impede de andar e de gritar. O medo é receio, o pavor é temor. Um é benéfico para te dar garantias; o outro é um bloqueio maléfico. Um é o passo parado para analisar o cenário; o outro é um passo atrás, para fugir de qualquer cena.

Queira mais para você. Lembre-se que, apesar de serem padrões, os homens que te fizeram mal podem e devem ser uma exceção. Não deixe que esses monstros ditem a forma como você vai viver. Não dê aos demônios que carrega dentro de você o gostinho de te ver sob poder daquelas mãos, daquelas propostas, daqueles olhares. Abaixe a cabeça, chore em silêncio, sinta a dor apunhalar novamente, mas levante um pouco a cabeça, olhe para eles e mostre o dedo do meio e mande um “foda-se” libertador!

Derrube mais esse castelo e mantenha as ruínas visíveis para te lembrar que é preciso precaução para te acolher. Só que queira se sentar no chão, fora do castelo, apenas para se permitir acreditar em algo novamente. Que tenha alguém do lado para te ajudar, como está tendo agora. Se ele não aguentar, paciência: outros virão. Não saberá se o outro vai suportar até se permitir deixar coisas para trás também e se desapegar dos antigos medos racionais e seguros. É bom andar pela rua com dúvidas e precauções sobre quem te cerca, mas é melhor ainda ter uma mão para segurar quando o medo rondar novamente em forma de pavor.

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“Então descobri que ela foi abusada pelo próprio pai dos 6 aos 11 anos. De uns meses pra cá, ela já não quer mais fazer sexo”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , , 4 comentários
Querido Ogro,

Bom, namoro uma menina que foi abusada sexualmente e agora percebi que nosso relacionamento depende de mim para ajudá-la, pois creio que ela ainda tem trauma.

Há um ano comecei a namorar essa menina de 15 anos que sempre queria ficar comigo. Já no nosso primeiro encontro fizemos sexo e depois disso fazíamos quase todos os dias. Ela nunca tomava a iniciativa, mas sempre que eu perguntava se queria ela dizia que sim, mas ela só fazia isso porque ela queria mesmo me conquistar. Então descobri que ela foi abusada pelo próprio pai dos 6 aos 11 anos, quando conseguiu fugir do pai e foi morar com a mãe.

Desde que eu soube disso odiei mais o pai dela mais do que ela mesmo, só não torturo ele até a morte porque primeiramente não quero ser preso e porque acredito na justiça de Deus.

Em meio a essas transas descontroladas, tivemos uma filha. Eu com 20 anos e ela com 16, hoje nossa filha está com quatro meses e somos felizes, pois logo vamos nos casar. Mas na verdade é uma busca pela felicidade: aprendi a amá-la e quero dar a ela uma vida melhor. Sofreu muito e sei que sem mim iria sofrer mais: tirei ela das bagunças da rua, fiz dela uma mulher responsável, mas tem um fantasma que impede a nossa real felicidade.

De uns meses pra cá, ela já não quer mais fazer sexo e quando fazemos (raramente), mesmo com muito tesão, fica pedindo pra parar e eu continuo e ela gosta muito, a ponto de falar que esta ficando louca de tesão, mas logo para e não quer mais. Analisando os fatos, constatei que isso são traços do trauma: ela me disse que é porque tem medo de se entregar pra mim.

Eu sempre analisei esse comportamento dela e vou descrevê-lo e peço ajuda para obter uma solução: percebi que ela tem medo de sentir prazer, ela luta contra o prazer, quando a masturbo e ela começa a sentir prazer, logo pede para parar e tira minha mão. Me disse que as vezes fica planejando fantasias sexuais para fazer comigo, mas que quando está na minha presença essas vontades acabam (bom, talvez ela não esteja mais gostando de mim).

Essa semana quase nos separáramos. Sempre que falamos sobre essa falta de desejo dela pelo sexo, diz que não me merece e que é melhor largá-la e achar alguém que me satisfaça. Não sei dizer ao certo se isso é um trauma do abuso sofrido - pois já se passaram cinco anos do ocorrido -, se ela tem algum problema ou se apenas não me ama mais. Tudo que sei é que é estranho ela sentir prazer e lutar contra esse prazer.

Então peço, por favor, que me ajude, pois é o futuro de três pessoas que está em jogo.

Talvez ajude no diagnostico: ela disse que quando está fazendo sexo e está sentindo o maior prazer, de repente o prazer acaba e dá vontade de parar na hora. Olha preciso ajudá-la, mas não sei exatamente como, não sei se paro de tentar fazer sexo com ela e de estimulá-la sexualmente, ou se continuo. Por favor me ajude a ajudá-la.


Meu caro moleque,

Vamos lá: primeiro me desculpe pela demora. Anda foda conseguir lidar com algumas coisas por aqui e preciso me recolher um tempo para conseguir ao menos responder algo. Acredite: as dores dessas meninas doem em mim pra caralho!

Outra coisa: não há um "diagnóstico" pois não sou profissional da área. Apenas tento encaminhar alguma luz de pensamento que possa ajudar a buscar mais respostas. É um palpite, um chute, uma tentativa de ajudar alguém a fazer algo bom por ele mesmo. Por isso um profissional da área é sempre indicado. Ainda mais por ela ser tão nova...

O que me contou é algo natural em quem sofreu um abuso tão cedo e por alguém que deveria ser uma referência para ela e que, infelizmente, se tornou uma referência negativa. E quem paga o pato por isso são as outras presenças masculinas na vida dela. No caso, você.

E independe o tempo que passe: isso é algo que trará muitos problemas emocionais a ela até conseguir lidar de alguma forma com isso. Veja o caso da Xuxa: só hoje, quase aos 50, é que conseguiu contar sobre os abusos sofridos até os 13 anos. Veja bem: mais de 30 anos depois e ela ainda se sente mal e machucada e insegura. Viu como o tempo não quer dizer nada? Os cinco anos da sua namorada podem significar apenas meses... as lembranças ainda estão muito presentes e marcadas na pele e no emocional.

Vejo que é novo ainda, um moleque praticamente, e já está com essa preocupação de ajudá-la e esse peso de criarem uma criança sendo tão novos ainda. Isso amadurece, força um amadurecimento que às vezes assusta e sufoca. É como se não tivesse tempo de ser inconsequente, apesar de terem sido quando não usaram a porra da camisinha. Enfim, ainda assim, realmente me alegra ver que busca uma forma de ajudá-la efetivamente. Só isso já é um grande passo, meu caro... muitos no seu lugar simplesmente deixariam de lado. Sim, conheço muitos assim, que por muito menos abandonaram muito mais! Só tome cuidado com essa coisa do “eu fiz”, “eu tirei”, “sem mim ela sofreria mais”. Pega leve nessa, pois pode soar como heroísmo demais e isso tira um pouco do mérito do que fez junto a ela.

Voltando: o desejo dela existe, mas o bloqueio emocional também. Ela se excita, o corpo responde, a vontade permanece... mas ao menor sinal de lembrança do que aconteceu, rapidamente tudo muda. E é em questão de segundos mesmo.

Imagine um exemplo: você está dirigindo uma rua e ao escutar um rojão você bate o carro e mata alguém. Isso vira um trauma para você e toda vez que estiver dirigindo tranquilamente, se escutar um rojão, se lembrará na hora do acidente. Mesmo passado anos, ainda terá essa marca no seu inconsciente. Rojão e direção te lembrarão a morte que causou... e o trauma que ficou.

Com ela é o mesmo: o dirigir é o sexo e o rojão é a memória do abuso sofrido. Quando a memória explode, ela quer parar de dirigir na hora por medo de matar mais alguém. No caso dela, o medo é de ser abusada novamente. E a culpa não é sua. É do filho da puta do pai dela...

Lembre-se de que ela tem apenas 16 anos, com uma filha já nos braços e a presença de um trauma muito forte. Era pra agora estar se soltando e se descobrindo sexualmente, conhecendo melhor o que gosta e não gosta, sabendo as preferências, desbravando o desejo e criando referências sexuais. Mas não: já precisa lidar com esse peso de uma lembrança tão massacrante.

O que fazer? Tenha calma. Não ache que ela não tem mais desejo por você ou que não te ame. Sexo é fundamental numa relação, ainda com um casal tão jovem, mas é preciso respeitar a dor dela. Ela não quis isso, se sente envergonhada pelo que passou e se culpa. Certamente, em algum dos abusos, ela por ventura deve ter sentido algum prazer ou algo perto disso. Não porque quis ou porque gostou, mas por ser algo físico e que não há muito como controlar essa parte.

Não digo que ela gozou ou sentiu prazer, mas uma sensação próxima a isso pode ter acontecido. Uma criança que gosta do carinho da mãe e do pai nas costas sente prazer naquilo e é um prazer não-sexual. E ela sentirá o mesmo caso alguém a acaricie nas costas do mesmo jeito, mas com malícia, entende?

Por isso ela se trava ao sentir prazer. Porque, de alguma forma, arremete a algo que ela sentiu no passado. Ela tinha 6 ano, era inocente, ingênua e sem nenhuma malícia. E, geralmente, os abusos começam assim: com um carinho aparentemente sem intenção clara do agressor, para não assustar e chocar a criança. Ainda mais um carinho vindo de um pai... Por um tempo, para ela, aquilo foi normal e natural, até que sentiu que era algo errado. Foi aí que marcou negativamente.

Quer mesmo ajudá-la? Respirem, sentem-se juntos e conversem de boa. Sem pressão por respostas, sem necessidade de progresso imediato. Apenas converse, ouça o que ela sente e o que ela quiser desabafar. Se for algo totalmente fora do acontecido, deixe rolar. Às vezes algumas mulheres precisam dessa fuga para conseguir respirar. “Fugir” do problema por ora, sabe?

Procurem um psicólogo, será bom pra ela ter outra figura de autoridade ajudando. Ela esteve esse tempo todo sem essa matriz, a dela ruiu com o que o pai fez e todos precisamos de pilares morais. Não sei como a mãe lidou com isso, mas mesmo que tenha feito o máximo que pode, ainda assim a lacuna do pai está destruída e vaga.

No sexo: quando ela pedir pra parar, pare. Deite, dê carinho, um abraço e um beijo apenas. Se ela te afastar nessa hora, diga que tudo bem, que estará ali ao lado caso ela precise. A cubra com um lençol e fique ali, quieto. Não force, não ache que é algo com você. Não é. Ela só precisa respirar nessa hora.

Há muito a superar e realmente espero que você consiga aguentar.
É difícil, mas igualmente recompensador.

Ter a plena confiança de alguém que passou por algo assim é das coisas mais gratificantes que já tive na vida. E conseguir ver um sorriso satisfeito no rosto dessa menina é o que faz tudo valer a pena.

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“Acordei sentindo algo subindo no meu corpo. Quando abri os olhos, era meu cunhado passando a mão em todo meu corpo”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 23 comentários
Querido Ogro:

Bom minha história é mais ou menos assim: eu tenho 17 anos e, quando completei 16 anos teve uma festinha na minha casa, nada muito grande. Quando deu certo horário, todos foram pra suas casas, mas meu cunhado dormiu aqui. Era pra ele ter dormido na sala com minha irmã só que ela o levou pro meu quarto e minha cama é ao lado da dela.

Acordei umas duas e meia da manhã sentindo algo subindo no meu corpo, até pensei que era algum bicho. Quando abri os olhosm era meu cunhado passando a mão em todo meu corpo, sinto nojo até de lembrar tudo que ele fez. Nós nunca transamos, mais essa não foi a primeira fez que ele fez isso. Mas com um tempo não aguentei ficar calada e falei aos meus pais sobre a primeira vez ele que fez isso, mas tive medo de falar sobre as outras vezes, e agora não tenho nem coragem de falar mais.

No inicio de tudo quando os meus pais ficaram sabendo, começaram a tratar o meu cunhado estranhamente, só que com uns meses após era como se nada tivesse acontecido, ele continua com as mordomias aqui em casa, e quando ele faz algo que eu não gosto aqui eu tenho que ficar calada sem reclamar porque se eu falar algo meus pais brigam comigo.

Já não sei mais o que fazer, comecei a ter insônia, medo de várias coisas, uma delas é que eu não consigo mais ficar sozinha com meu pai porque tenho medo dele fazer a mesma coisa comigo. Meu pai sempre foi meu espelho, meu herói mais de uns dias pra cá só sei ter raiva dele. Toda dia que meu cunhado chega aqui em casa eu me tranco no quarto e choro, estou ficando desesperada sem saber o que fazer às vezes me dá vontade de sair de casa, outras vezes choro feito criança.

Minha irmã não é casada com meu cunhado, ela tá noiva dele há quatro anos (ela não sabe de nada, porque mesmo que eu dissesse a ela, não acreditaria) e sei que nunca irão casar porque tudo que eles querem aqui eles tem. Meus pais querem que eu o trate normalmente mais eu não consigo, dele só consigo ter ódio só isso. Mas no meu ponto de vista era como se meus pais já tivessem esquecido tudo que acontece.

Eu tento esquecer mais é impossível, o ver todo dia na minha casa só me maltrata, é como se eu revivesse tudo de novo. Tento procurar um psicólogo mais não tem como, porque sempre que tento comentar o assunto com eles mais eles fogem.

Eu não consigo mais conviver com ele dentro da minha casa, falo todos os dias aos meus pais que não o suporto mais é como se já tivessem acomodados a essa situação. Me da uma ajudinha ai Querido Ogro!


Minha cara perdida,

Primeiro: calma! Está tudo recente e em crescente transtorno. Quanto mais tenta não pensar nisso, mais você se vê presa ao pensamento e à sensação. Ainda mais por vê-lo todos os dias. E fatalmente a cara com que ele olha para você não ajuda, certo? Aquele olhar de quem come com os olhos, de quem tem algo seu e que pode usar quando quiser. É quase como se ele se sentisse dono de você só por ter sido “macho” de ter feito o que fez.

Eu conheço esse olhar nojento. O vejo por aí, em cada homem que corre para a calçada ao ver uma menina descer a rua, ao ver uma mulher com decote no ônibus, ao parar o carro para secar alguém com as pernas à mostra. Mas no caso dele, o olhar é ainda pior... é mais repugnante, te traz mais dor ao estômago.

Mas vamos lá: o fato dele não ter transado contigo não muda nada. É a mesma invasão, o mesmo desrespeito, a mesma violação. E te causa o mesmo transtorno, revolta, dor e culpa. Sempre cai um “será” na cabeça nessas horas, não? Será que se eu tivesse gritado, ele teria parado na primeira? Será que se eu tivesse contado para minha irmã, ela acreditaria? Será que eu gostei? Será que eu incentivei esse comportamento? Será, será, será?

Nessas horas, a pior dúvida é justamente a dúvida que corrói e não para de martelar. Mas espero que consiga entender o fator primordial disso: NADA do que você possa ter feito justifica isso. NADA. Uma camisola de dormir mais curta, um pijama mais transparente, uma brincadeira inocente... Você estava na sua casa, ao lado de pessoas que confia e se sente à vontade. Nunca iria esperar isso dele. Portanto, o erro não foi seu, foi dele! Isso precisa mesmo ficar claro pra você.

Outra coisa: não se sinta culpada por não ter contado à sua irmã ou, ainda, por ter contato aos seus pais. Não é algo que deva ter vergonha, apesar de se envergonhar por ter sofrido esse abuso. Entendo que a forma como eles lidaram foi a menos indicada, mas ainda assim você criou coragem para verbalizar isso de alguma forma, assim como fez comigo. Isso é bem necessário para que você consiga assimilar o que sofreu e não ter medo de continuar a falar.

Os seus pais lidaram com isso da forma como a maioria lida: vamos jogar em uma gaveta para que ninguém mais toque no assunto e sigamos “felizes para sempre”. Eles fingem que não sabem, você finge que está tudo bem e tudo segue assim. Mas você precisa de alguém que te dê o mínimo de segurança. Ainda mais com esse filho da puta morando em sua casa!

Por isso pegou descrença no seu pai e até teme que ele faça o mesmo. Suas referências masculinas estão abaladas justamente por ele não ter tido a coragem de socar na cara aquele monstro que subiu em você. É o que se espera de qualquer pai, de qualquer homem, de qualquer ser humano: que soque um canalha desses. Você mesma tem vontade disso toda vez que o vê. E se sentiu desamparada quando mais precisou de um protetor.

Eu tenho um conselho bem radical para isso: durma com uma faca embaixo do travesseiro. Sim, uma faca! Isso te trará uma muleta de segurança para chorar menos e sentir menos medo. E se ele aparecer em sua frente novamente, tire a faca e mostre para ele e diga que não terá medo de usar caso ele tente algo de novo. Pode parecer que não, mas esses covardes morrem de medo de serem confrontados, por isso usam da manipulação emocional e psicológica. Usam de ameaças, de olhares inquisidores, de risadas maliciosas e sarcásticas, mas no fundo morrem de medo de serem expostos. E justamente por ser você a que tem o poder de o expor, ele vai tentar te calar o máximo que puder.

Mas você tem poder sobre ele, não o contrário.

Ainda acho que deveria conversar com sua irmã. De forma bem aberta e clara, sem tentar amenizar o impacto disso sobre ela. Abra o jogo quando estiverem as duas sozinhas, diga que não se sente à vontade com ele porque ele já te molestou, diga quando foi e que você nunca provocou isso. Por mais que ela tente te culpar, saiba que será uma fuga para tentar justificar uma realidade conturbada. É natural que ela te culpe a princípio, apesar de não ser o esperando nem o ideal. Só que é melhor você tirar isso de você, até mesmo para te ajudar a se precaver da presença dele.

Ao relatar para ela, inclusive que seus pais sabem, você terá um motivo para não querê-lo em seu quarto, em sua companhia, em nenhum lugar! Por mais que ela não acredite em você, ainda assim ela irá desconfiar se essa história não tem um fundo de verdade. E não gostará de vê-lo perto de você, o que até será algo a favor agora.

Ou se não está tão confortável para contar a ela, entre pela tangente: diga que uma amiga sua está passando por isso e pediu conselhos a você. Conte a sua história como sendo a de uma amiga e veja a reação dela. Isso te dará um pouco de orientação sobre como ela irá agir quando contar que a amiga, no caso, é você.

O mesmo deve fazer com seus pais: confronta-los. Aproveite que o assunto está em pauta e use isso. Mostre que você está fragilizada, que precisa de ajuda, de carinho de verdade, de proteção. Cobre deles a responsabilidade deles ao se calarem ante algo tão abominável. Você tem 17, está em uma fase onde é normal questionar e confrontar os pais. Use disso, faça da sua idade algo a seu favor. Por mais que te tachem de louca, de surtada, de qualquer coisa. Você sabe que não é assim e você sabe que o que aconteceu a você é algo horrível. Não está errada em querer que façam algo. Porra!

Apesar de se sentir sozinha, não está sozinha. Tanto é que encontrou meu blog, não? E criou coragem de falar sobre isso comigo. Assim como outras meninas por aqui. E de certa forma, isso te deu coragem para se expor, mesmo que ninguém aqui saiba que você é você. Foi preciso muita coragem para me mandar esse e-mail. Isso prova que está com vontade de combater esse medo que te toma conta.

Faça isso: tente verbalizar com eles, durma com a faca e não tenha medo dele. Não sei como tem sido a postura dele com você desde então, mas saiba que é ele quem precisa ter medo de você. Porque a qualquer momento você pode ir a uma delegacia ou ligar para o Disque 100 e denunciá-lo. Entendo que recorrer a isso é se expor, mas ainda assim é uma outra alternativa que deve tentar para se sentir menos insegura.

Sua casa precisa ser seu refúgio, não seu cativeiro. Se está em uma guerra interna, faça do seu quarto justamente uma trincheira. Se arme, não tema, saiba que está amparada por milhares de pessoas que sofreram coisas parecidas e que sabem o que você está sentindo. E muitas se armaram para combater aquele que sobe em sua cama nos seus pesadelos. Isso precisa ser combatido internamente.

Se precisar, me mande outros e-mails e conversaremos apenas nós dois.

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“Fui abusada quando tinha cerca de 5 anos pelo meu vizinho. Ele tirava a minha roupa, passava a mão em mim...”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Querido Ogro; Fui abusada quando tinha cerca de 5 anos pelo meu vizinho. Eu e meu irmão íamos sempre brincar na casa dele, pois tínhamos um colega mais ou menos da nossa idade. Porém ele tinha um irmão de aproximadamente uns 18 anos e era ele que abusava de mim. Enquanto meu irmão se entretia com o outro garoto no vídeo game, ele me chamava pra ir ao quarto com ele. Não entendia muito bem o que era e ia...

Ele tirava a minha roupa, passava a mão em mim e tentava colocar o pênis na minha vagina. Eu, por algum motivo, sabia que aquilo era errado, mas não tinha coragem de contar pros meus pais. A minha sorte foi que meu irmão percebeu e fez chantagem comigo, dizendo que contaria na frente da minha mãe. Aí, sim, fui obrigada e tive a coragem de contar.

Contei, mas na verdade, com a minha idade, nem eu imaginava que isso era tão grave. Ela ficou desesperada, mas por falta de informação, não o denunciou. Mas também nunca mais me deixou voltar naquela casa e ficou mais atenta!

Tinha também outro vizinho de uns 18 anos que sempre que me pegava no colo na brincadeira e colocava o dedo dele dentro do meu ânus. Graças a Deus nunca teve a oportunidade de ficar só comigo, senão seria outro trauma!

Enfim, os abusos com o tal outro vizinho eu não me lembro quantas vezes aconteceram direito, mais devem ter sido umas duas vezes. Não sei porquê, mas é como tivesse apagado da minha mente e não consigo lembrar muito bem. Hoje tenho 21 anos e até que não me sinto tão traumatizada. Tenho uma família maravilhosa, mas isso nunca mais foi comentado. Tive sempre problemas com relacionamentos, tinha um pouco de medo dos homens, então nunca tive relacionamentos duradouros. Hoje em dia estou bem, tenho um namorado que me dou extremamente bem e consigo sempre atingir o orgasmo. Ele foi o único namorado que confiei e me senti à vontade para contar minhas coisas.

Esses dias estou me lembrando muito desse abuso e senti um pouco de vontade de contar pra ele. Eu já me vejo superada, mas não sei se conto e como contar. Não sei como ele vai agir... O que você acha? A única coisa que tenho é muito nojo daquele cara que abusou de mim, só que nunca mais o vi, ainda bem... moro até em outra cidade, até!

De qualquer forma, achei bom falar sobre esse assunto que nunca foi comentado principalmente depois que eu passei a entender as coisas, todos sabem que aconteceu da minha família, mas acredito que todos tem medo de tocar nesse assunto.


Minha cara,

Sempre é bom termos acesso a relatos como o seu. Bom pois é um ótimo tapa de realidade na cara daqueles que acham que esse tipo de coisa não acontece, que é exagero e que nenhuma criança se lembraria de algo. Sim, uma criança se lembra e com detalhes. Pois marca de uma forma estranha e diferente do natural ao qual está habituada.

Você mesma fala que não lembra muito, mas dá detalhes. Talvez não se lembre da hora em que era molestada, mas se lembra da sensação e de toda a situação da época. Lembra-se do vizinho, das idades e do que faziam. E da reação do seu irmão e da sua mãe. Isso são lembranças muito claras para você, apesar de ter bloqueado as cenas do abuso, apesar de se lembrar da roupa sendo tirada, por exemplo. Ou ainda do outro que te tocava por trás.

E agora que tem mais condições de entender pelo que passou, é natural que volte mais vezes à tona esse pensamento, mesmo não se lembrando direito. Dá a impressão de que falta algo, não é? Algo não se encaixa, um vazio diferente que você também não sabe explicar. Talvez a sensação de fragilidade volte às vezes e mesmo a insegurança. Um pouco da culpa que não sentiu e sente agora. Ou mesmo a vergonha.

Não se sente traumatizada porque não é, de fato. Passou por um trauma, é diferente de ser traumatizada. Passamos por traumas a vida toda, com impactos diferentes. Mas alguns ditam alguns comportamentos nossos. Outros não fazem tanta diferença, apenas se tornam um amargo gosto. Esse seu medo dos homens e insegurança nos relacionamentos anteriores pode muito bem ser um reflexo disso, mesmo você não sabendo. Ou apenas tenha tido relações ruins e que a fizeram não ter a mesma confiança que tem no seu namorado de hoje. Tudo pode ser relativo ou não, depende da forma como prefere ver, a forma que vai te deixar menos encanada. Ainda mais quando o assunto se transformou em apenas uma lembrança sua e nunca houve uma preocupação da sua família de tentar saber como isso te afetou.

Quanto ao namorado, foco da sua principal dúvida... Antes de qualquer coisa, analise a idade dele e o tempo que estão juntos. Analise friamente, deixe um pouco o sentimento de lado e veja mais racionalmente. Ele será adulto o suficiente para lidar com isso? Ou tem dúvidas sobre como te tratará depois disso? Porque pode ser que você se sinta pior caso a reação dele seja negativa. E não precisa disso agora.

Faça um teste. Comente sobre notícias que leu acerca do assunto. Use o caso da Xuxa, por exemplo, que agora está pauta e converse. Pergunte o que ele achou da coragem dela de assumir um abuso depois de tanto tempo. Se aprofunde, conheça a opinião dele a respeito desse assunto específico. E questione mesmo, sempre a usando como referência para responder as suas dúvidas sobre como ele iria se comportar caso fosse você contando o mesmo.

Há basicamente três formas de um homem agir ante esse assunto: rechaçam e culpam com dedo em riste, são indiferentes e ignoram por não saber ou não querer lidar; ou compreendem e tentam ajudar de alguma forma. Por isso muitas mulheres optam por não contar, por medo da primeira alternativa. Outras até conseguem suportar a indiferença da segunda. Mas é muito melhor quando encontram o conforto da terceira. E isso só saberá conversando.

Tente abordar assim o assunto e isso te dará um norte. Apenas lembre-se sempre de se respeitar e cobrar o mesmo respeito. O que te aconteceu não é demérito muito menos algo a se envergonhar.

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Aniversário do Querido Ogro

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: 5 comentários

Quando um blog muda sua vida sem te mudar... é assim que defino meu "Querido Ogro".

Em 2010 criei este blog depois de uma boa experiência despretensiosa no Formspring.me. O pessoal me perguntava coisas, eu respondia da minha maneira e a brincadeira seguia. Muitas dúvidas sobre relacionamentos e sexo, obviamente. Gosto de falar sobre esses assuntos, são os que mais geram debates e os que mais revelam como as pessoas são. Quer conhecer alguém? Saiba quais conceitos ela tem sobre relacionamentos e o que ela esconde sobre suas aptidões sexuais.

Até que um dia alguém quis me mandar um e-mail com sua dúvida. Me pediu pelo Twitter. Recebi o e-mail e achei bacana respondê-lo em um lugar público, já que outras pessoas poderiam ter a mesma dúvida. Não queria publicá-lo no "Questão de Ordem" por não se encaixar na minha desconexa filosofia para aquele espaço e pensei: por que não criar um outro espaço específico para isso?

Assim nasceu o Querido Ogro... um nome baseado num apelido tímido que ganhei de algumas pessoas devido ao meu modo peculiar de ser, recheado de palavrões e com uma pitada bem dosada de grosseria e\ou mau humor.

Me encontrava no meio de um começo, dois meses antes havia completado 28 anos e tatuado dois conceitos no meu pulso direito – mão que escrevo - em forma de deuses egípcios: Maat, deusa da justiça, e Thot, deus da sabedoria, deus da escrita. Dois conceitos que trago comigo e que, acredito, me fizeram criar o blog. Uma deusa mulher e um deus lunar. Justiça e sabedoria através da escrita. Não foi por acaso.

Dois anos depois, mais de 70 textos publicados, uma média de 200 visitas por dia, centenas de e-mails recebidos – muitos não respondidos ou apenas respondidos via e-mail mesmo - e meu blog se tornou algo bem diferente do que foi no começo. Mensagens sérias sobre violência e abuso contra mulheres e crianças, situações que me deixam sem resposta na hora em que leio e me proporcionam uma enorme vácuo no peito e na garganta. Muitos levo semanas para conseguir responder algo que possa confortar, ao menos, naquele momento.

Não é fácil. Quase sempre um “por favor, me ajude” ao final da mensagem me abre uma crise de choro que me faz mal. Acho que sinto o peso desse pedido de ajuda e nunca me sinto apto realmente a ajudar. É foda conseguir dizer algo que traga alívio e esperança e possa realmente suscitar uma mudança de postura, comportamento e pensamento sobre o mal que aflige aquela que procura nas palavras de um desconhecido virtual um pouco de conforto.

Ainda mais eu, tão cheio de ceticismo quanto ao ser humano... a minha sorte foi ter encontrado uma exceção para me manter respirando. Não fosse isso, eu fatalmente teria desistido do blog. Pode parecer exagero, mas não ter com quem debater o que recebo sempre me deixa abatido demais, sem me sentir seguro para conseguir responder. Mesmo um porto precisa se aportar e consegui encontrar um.

Quando vejo quais termos levaram as pessoas a encontrarem o blog, me sinto mal também. Em média, 30 pessoas por semana entram pesquisando apenas por “fui estuprada”. Depois vêm as variantes: abusada pelo pai, estuprada pelo tio, meu avó me estuprou... E ainda há absurdos do tipo “como estuprar minha mãe” ou “estupro de mulher divorciada”. E você acha que o mundo que apresento é fantasioso. É...

Pois é... triste de você que pensa que essa realidade não faz parte do SEU cotidiano. Olhe ao lado e veja quantas mulheres passaram por sua vida e nunca sequer deu abertura para que pudessem contar a você algo parecido? Acredite: elas sentiram falta de dividir isso, de tirar um pouco daquele peso da alma. E você sequer deu atenção.

No começo, me lembro bem de ouvir que os e-mails eram inventados por mim... “Duvido que alguém faça isso: contar seu pior problema a um estranho que só fala palavrão e xinga”. Era o que mais ouvi certo tempo. Pessoas que nunca imaginei acessar o blog me diziam isso pessoalmente, achavam um absurdo uma irmã ser estuprada pelo irmão ou um pai engravidar a própria filha. Não sei se era a ignorância de ver o mundo ou o medo de acreditar viver num mundo assim.

Mas me segurei, consegui superar os entraves através de muito choro, bebida, reclusão e disputa interna. De alguma forma, ao sentir a dor do desabafo consegui sentir suas dores e entendê-las um pouco. Ao menos compreender. Não tenho olhar de piedade tampouco dedos apontados. Você passou por um trauma? Ok... mas isso não te faz uma pessoa traumatizada. Não a tratarei assim, pois.

Hoje estou numa luta em busca de publicar um livro com essas histórias. Pois o grande diferencial do Querido Ogro não é o que escrevo: é a coragem que muitas tiveram em se expor e acreditar que um simples desabafo faria diferença. Chega a soar como um último sopro de vida antes de desistir dela. Talvez uma obra impressa possa ajudar outras pessoas. Sempre é um descarrego saber que não é a única a passar por situação semelhante. E estamos aqui, todos buscando obter resposta e um pouco de ar no peito.

Neste aniversário, os parabéns não são para o blog. São para você que conseguiu superar o medo e criou coragem de escrever. Enfrentou seus monstros mais uma vez e os perpetuou fora da sua memória, em uma folha branca de papel virtual. Parabenizo você que rasgou seu último vestígio de dignidade e jogou no Google a pior coisa que te aconteceu, na vil esperança de encontrar algo. Assim você encontrou outras mulheres como você e viu que nisso poderia encontrar forças para se sentir menos estranha, menos aberração, mesmo sabendo que a aberração é aquele que te causou tal mal.

Nunca quis me tornar paladino de nada. E não me tornei. Nós nos tornamos: esse espaço é para colocarmos o mundo à parte e podermos ser o que realmente somos, cheios de medo, dúvidas, frustrações, cansaços e desilusões. Mas ainda queremos viver, sentir o gosto e o entorpecer da vida.

Estamos aqui... continuaremos aqui, buscando enfrentar esse mundo machista, opressor, repugnante e arcaico. Somados, somos uma legião. Ainda enfrentaremos algozes, encontraremos novos integrantes, passaremos por tristes tormentas sozinhos em nossos travesseiros, embaixo de nossos chuveiros, derrubados em nossos sofás. Mas saberemos que ao menos em algum lugar alguém poderá nos entender e não nos recriminará. E isso trará alívio e gratidão.

E não há recompensa maior do que um simples “obrigado” repleto de gratidão.
Por isso os parabéns são seus. E o obrigado é todo meu. Meu muito obrigado por tudo.


(A imagem que ilustra: "O Pecado de Nora Moran"... uma próxima tattoo que farei, em homenagem à todas minhas meninas do blog... a imagem é uma poesia e apenas nós a entenderemos, certo?)
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“Tenho 28 anos e até então nunca tinha me relacionado com mulheres. Gosto dela mas continuou sentindo desejos por homens”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 1 comentários
Querido Ogro,

Vivo um constante dilema em minha vida. Há quatro anos deixei a casa dos meus pais para viver com uma mulher. Tudo aconteceu MUITO rápido, com 10 meses de relacionamento eu já estava morando com ela. Tenho 28 anos e até então nunca tinha me relacionado com mulheres, apenas homens.

Meu último relacionamento com um homem durou dois anos, eu era muito apaixonada por ele, mas foi uma grade decepção amorosa. Passei uns três meses de “luto” após o término. Tinha dificuldades de me envolver com outros homens, pois tinha a expectativa de voltar com ele ainda. Passado o luto, continuei tendo dificuldades de me relacionar com homens, não sei explicar ao certo, pois não era por falta de “demanda”, me considero uma mulher interessante e sempre existem rapazes (até hoje) que me assediam bastante. Meu relacionamento com ela não é “aberto”, pois nossas famílias não aceitariam nunca e também porque não sei se é realmente isso que quero para a minha vida. Então vivemos meio “enclausuradas”, poucas pessoas sabem do nosso relacionamento.

Bom, mas meu principal dilema é: eu gosto dela, acho que amo, mas continuou sentindo desejos por homens. Já entrei em crises de depressão, pois sempre sonhei, desde pequena em casar, ter filhos e com ela é tudo muito complicado e sinceramente eu nem sei se encararia montar uma família, com filhos, em um relacionamento assim. Se eu pudesse escolher, escolheria hoje estar casada com um homem e com os filhos que sempre desejei ter.

Hoje não sei se o que sinto por ela é realmente amor ou simplesmente convivência, pois sexualmente não me sinto mais realizada. Depois que saímos para morar juntas, tudo mudou bastante. Passamos semanas, meses sem sexo. Existe muito companheirismo, cuidado, carinho, mas falta algo que eu não sei explicar. Somos mais amigas do que mesmo namoradas.

Outro dilema que convivo diariamente é o fato de “eu não me aceitar gay”. Quando saímos é sempre como “amigas”, pois sinto vergonha. Juro que não queria que fosse assim, mas não consigo me “assumir”, até porque como já citei acima, continuou sentindo desejos e atração por homens, sinto falta de fazer amor com homem. Como não gosto de me rotular, digo sempre para mim que gosto de pessoas, mas confesso que isso é um peso grande de carregar. Sinto falta da minha liberdade, mas estou “presa” nessa estrutura que construí com ela.

Quando saímos com meninas “do time”, muitas vezes me sinto mal, não querendo estar ali, fico vendo as meninas com seus namorados e muitas vezes desejo estar “do outro lado”.

Ela (que tem 30 anos) é uma mulher maravilhosa e não quero magoá-la. Já tentamos algumas vezes nos separar para “sentir” o que realmente queremos para nossas vidas. Ela percebeu que algo está errado comigo, mas todas as tentativas foram frustradas, pois como saímos para dividir um apê e não temos como e não queremos voltar para casa dos nossos pais, todas as vezes que nos “separamos”, continuamos vivendo no mesmo lugar e isso definitivamente não dá certo. Infelizmente não tenho estrutura financeira ainda para morar sozinha, dependo dela financeiramente para dividir as contas.

Querido Ogro, por favor, me ajude, pois não sei mais o que fazer. Sinto que minha vida está passando e eu estou apenas assistindo.


Minha cara gangorra,

É quando a vida começa a passar e não sentimos mais o gosto dela é que algo precisa ser feito. Há quem se contente em lamber a vida, mas há quem precise se engasgar com ela, devorar cada pedaço do cotidiano, se lambuzar da realidade e se afogar no lirismo do viver.

E é isso que está te faltando: essa gana, essa sede, essa fome. Agora está tudo muito sem gosto, apenas se alimenta para sobreviver de alguma forma. Uma praticidade que mata qualquer relacionamento.

E é assim que você deve ver sua relação: um relacionamento como outro qualquer. O fato de ser uma relação homossexual não muda nada. São duas pessoas convivendo sob o mesmo teto, cada uma com sua educação moral e ética, cada uma com medo dos preconceitos alheios e em uma fase da vida cheia de dúvidas e quase nenhuma resposta.

Considero os 28 anos o novo “18 anos” da vida adulta. É a maturidade pós-maioridade. Estranhamente a partir dessa idade as coisas parecem exigir mais explicações, as certezas somem e as dúvidas mudam. Todos os seus conceitos são atualizados, suas necessidades deixam de se adaptar e a busca por respostas consome boa parte do seu tempo. Comigo foi assim: justamente aos 28 deixei de apenas lamber a vida e vários pilares conceituais que eu tinha como certos de repente ruíram e novos foram construídos.

É o que agora te acomete. E nesse caso, precisa levar em consideração o agravante de estar vivendo com alguém diariamente. Isso fode muito a cabeça, ainda mais em uma relação totalmente nova e diferente para você. O primeiro ano de um casamento – se moram juntas, é um casamento, sim – é uma merda. Quem diz que o primeiro ano é todo lua-de-mel é porque está querendo ver outras pessoas se foderem como ele. O primeiro ano de um casamento é horrível e isso independe do tempo prévio que ambos namoraram: se namorou por 10 anos ou por 10 meses, sofrerá o mesmo choque.

Suas dúvidas sobre ter tesão em homens ainda é muito natural. Passou todos esses anos apenas saindo com eles e sua namorada acabou sendo uma exceção. Uma gostosa exceção que te fez se deixar levar. Era diferente, a novidade te excitava, o carinho era totalmente o inverso de tudo o que recebeu antes. Isso tudo conta para a excitação inicial e todo mundo pensa errado quando fica de pau duro ou buceta molhada. Essa porra de tesão meio que anula o cérebro.

E nisso voltamos ao fato de que, independente de ser uma relação nova para você, ainda assim é a mesma relação de qualquer pessoa com qualquer outra pessoa. Passará pelos mesmos estágios, em fases e níveis diferentes, mas enfrentará o mesmo que enfrentaria se fosse com um homem. A falta de tesão joga uma avalanche de dúvidas sobre vocês – sim, ela também pensa o mesmo que você em relação a isso. E nessas horas você resgata o que agora é diferente mas que sempre foi comum para você. De repente, sexo com homens virou a nova exceção e isso te empolga e te excita, da mesma forma como ela fazia antes.

Qual a diferença, por exemplo, de um casal hétero onde a mulher fantasia com outros homens? Ou mesmo com outras mulheres - e isso acontece muito... Nenhuma diferença. É o desejo por outra pessoa, por um toque diferente, por uma excitação causada pela novidade, pela necessidade de sempre ter algo novo. Isso é possível dentro da mesma relação desde que haja muita conversa e disposição. Por isso muitos casais chegam a cogitar um ménage. A simples ideia de ter um terceiro envolvido já empolga mais do que a real chegada desse elemento na relação. Ou mesmo uma única vez que dividam o mesmo homem pode ser uma nova chama que se acende e torna a queimar suas camas - desde que não vire uma muleta e apenas isso cause excitação.

Mas aí é que está a chave da coisa toda: você conversa com ela sobre isso? Conseguem debater o assunto sem uma acusar a outra? Sem tentarem desmerecer o argumento uma da outra? Uma conversa franca, com todas as dúvidas expostas e sem deixar nenhuma mágoa guardada para um eventual ataque tardio.

Não, vocês não conversam. Me disse que não sabe se ela encararia montar uma família. Isso é sinal de que preceitos básicos numa relação ainda não foram discutidos entre vocês. E é natural que isso não aconteça, é uma relação muito nova apesar de já viver sob o peso da convivência diária-quase -horária.

Ainda me diz que se pudesse escolher, estaria casada com um homem. E por que escolheria isso? Por que não teria condições de assumir uma relação dita diferente dos padrões impostos por nossos pais? Ou por que acha que ela realmente foi uma exceção?

Tenho uma amiga que passou por algo bem parecido: morou com uma mulher por anos, eram assumidas, se davam bem apesar do perfil da namorada ser bem ciumento e possessivo. Foi a primeira e única namorada dela. E ela sempre me dizia: “meu negócio é homem, ela é minha exceção. Se amanhã nos separarmos, volto a namorar homem. Não gosto de mulher, eu gosto é dela!”. E foi o que aconteceu: se separaram e hoje essa minha amiga está casada com um homem.

Talvez seja o seu caso. Talvez ela seja sua exceção. Talvez venha disso a sua “vergonha” de ser gay: você gosta dela, excepcionalmente dela. Você não se vê lésbica, não sente atração por outras mulheres. Teu lance é com ela e só com ela e por isso suas fantasias envolvem outros homens e não outras mulheres. Pois se não for com ela, você voltará a procurá-los. Ou você sente desejo por outras mulheres?

Isso, minha cara, pode ser um bom sinal de amor, sim. Talvez essa sua exceção seja justamente por sentir nela algo que difira da maioria. Mas para isso ser real e pleno, é preciso conversar. Não dá pra esperar passar o tempo e deixar o outro se tocar sozinho dos problemas que acometem a relação. Eu fiz isso e paguei anos de juros pesados. Não queira isso. Não vale a pena esperar apenas por medo de magoar o outro.

Não há pior mágoa em uma relação do que o silêncio auto-imposto. É preferível o choro causado pela exposição de sentimentos ao sorriso causado pela omissão de desejos.

Acredito que ainda haja tempo de salvar esse barco. Nenhuma causou grandes mágoas na outra ainda, nenhuma precisou procurar outros amores para enxergar a realidade de agora. Leve isso em consideração.

Pense na sua relação como uma escultura. Já esculpiram o desenho, falta agora o acabamento. O verniz é a atração não apenas física, mas humana e de caráter, onde sempre consegue admirar o outro por suas qualidades e apesar de seus defeitos; o diálogo é como uma lixa que apara os excessos e renova as camadas do verniz. Se constantemente conseguirem envernizar e lixar essa escultura, terão uma peça digna de ser exposta na principal estante de suas vidas. Caso contrário, será apenas um entulho empoeirado e amontoado no quarto das reminiscências.

Depois de quatro anos, estão precisando de uma demão nova. Resta saber se ambas estão dispostas a se sujarem um pouco. Afinal, não dá pra lixar nenhuma relação sem se sujar um pouco com o pó da realidade. Mas nada que um banho depois não resolva. Juntas, quem sabe?

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“Sou casada e meu marido me traiu. Eu o perdoei, mas desde então vivo sempre desconfiada”

Posted: | por Felipe Voigt | Marcadores: , 29 comentários
Querido,

Tenho 30 anos, sou casada há cinco anos e há uns dois anos meu marido me traiu. Depois de muito choro e conversa eu o perdoei, mas desde então vivo sempre desconfiada, não consigo ser como antes. Se ele se atrasa do serviço já fico desconfiada, chego a ser paranóica! Não sei mais o que fazer, me ajude, por favor! Meu casamento vai acabar desse jeito e eu amo muito meu marido!

Querida,

Você vê como esse "perdão" não funciona? "Perdoa" pra tentar manter a convenção do seu casamento, mas depois disso vê que ele não existe mais da forma como existia. E nem voltará a existir. Você sempre irá desconfiar, vai surtar, vai alegar coisas para justificar a desconfiança. Mesmo que ele lhe seja fiel, viverá sob esse manto inquisidor e deverá agüentar calado, caso queira manter a relação ativa, de alguma forma.

Uma vez descoberta uma traição, quebra-se o vaso da relação. Você pode até tentar consertá-lo, mas toda vez que o vir exposto na sua estante, verá as marcas da cola e saberá que ele esteve quebrado. E vai preferir o vaso de antes. Mas aquele vaso está em cacos e assim permanecerá.

Você ama o que a sua relação representava, o que o seu marido representava: uma união, uma relação que te fazia bem. Agora ela não faz mais e você está afundando com ela. Infelizmente não há o que fazer: as coisas não voltarão a ser como antes para vocês e a tendência é piorar. Resta saber o quanto consegue ficar se respirar, já que estará atrelada a essa âncora um bom tempo ainda.

Você não o perdoou nem nunca perdoará. E é isso que não quer assumir para você. Ou aceita que não há mais aquela relação ou tenta viver sob essa hipocrisia do perdão: você perdoou o erro, mas não o errante.

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